Meados de outubro foi quando saimos de Puerto La Cruz com destino a Trinidad. Mas antes, fomos a La Blanquilha, 90 milhas ao norte, fazer turismo. Vento perfeito entrando por boreste fez com que as duas da manha, jogassemos ancora. O tal sonhado leme de vento, comprado dias antes de sairmos, funcionou e os tres homens acharam estar agora, no paraiso. Pandora, por outras razoes, tambem. Amanheceu com ela latindo pra agua, pro vento, pra tudo. Deve ter gostado do que viu, como nos. Mas a ilha surpreendeu pela pouca altura e pela aridez. Realmente aproveitamos os seis dias na mais merecida folga mas as tais faladas lagostas, so comemos porque trocamos por duas carteiras de cigarro com pescadores. Promessa feita a tripulacao e cumprida. A forma de " te-las" e que nao fazia parte do script... 17 veleiros no mesmo ancoradouro mostrando-nos o quanto de usual e esta vida. Alguns conhecidos da Venezuela, tambem comecando a subir. A posicao geografica de La Blanquilha proporciona boa velejada pra quem queira ir direto a Martinica e alguns ja tem charter marcado la, com data a cumprir. Descemos a Margherita para resolver duas questoes: embarcar frutas, verduras e comprar um motor de popa. Bons ventos, agora por bombordo ate a face oeste da Ilha quando parou tudo e tivemos que motorar por 10 horas. Meio dia, estavamos ancorados . E aqui, diga-se: ancorar e muito bom! O vento entra sempre e o barco fica fresquinho, arejado, tao diferente de se estar numa marina... Claro que perde o conforto da agua abundante, por exemplo, que aqui passa a ser racionada mas ja temos experiencia, la daquela primeira etapa, que as prioridades e que importam. E nao ter um piripaque com o calor, era a prioridade. Motor Yamaha, zero, 5 cavalos e 5 pessoas capazes de dar a vida por ele! Ufa, que maravilha. Chega da tortura dos remos. E ai, conquistei minha liberdade em ir e vir: aprendi a usar nosso dingue. Ainda em Margherita pagamos nosso primeiro abastecimento pela agua ( entraram 80 litros ) e percebemos que estavamos bem controlados mesmo com ela. Em 11 dias tinhamos gasto este volume entre cozinhar e beber. Voce pode imaginar que nossos banhos eram so com a salgada entao. Eram mesmo e acostuma. Debora e eu tinhamos a mordomia de poder usar dois copos pra enxaguar com a agua doce, eventualmente, os cabelos. Agora para Los Testigos. Tempo para pescar com arpao, comer dois peixes e perder o arpao. Conclusao das mais simples: sem arpao ate se fazer a grana para comprar outro. Independente disso, lindo o lugar. Nos surpreendeu, a favor. Fomos para Trinidad motorando todo o percurso. Ausencia total de vento o que foi bom, porque, se houvesse, a tendencia seria contra. Objetivo: tirar o Luiza da agua, pintar o fundo, revisar o leme. ...Desde Abrolhos, quando Fernando e Guilherme " passearam " sobre um coral ha 20 milhas da costa, distraidamente e depois, cerca de Maceio, sobre uns arrefices, a situacao era emergencial. Foram driblando com o leme, deram uma " garibada " com a ajuda de um recem amigo velejador em Fortaleza para entao, agora, resolver de vez o problema. 
Mas, ao erguer o Luiza, o fundo merecia mais atencao do que o esperado. Buzanos. Caramba, bichinhos sem vergonha mesmo comendo nossa casa! Fogo, fogo neles. Matamos prazerosamente todos ao longo dos 14 dias que, em paralelo, raspamos o que havia de tinta no fundo e...o costado. Agora porque todos queriamos muito um barco bem bonito, trabalho bem feito, em seco. E precisava. Sua conclusao obvia e que desta vez nao deu briga. Errou: deu. E que discussao no penultimo dia. So que o cansaco sob o calor, a pouca grana indo embora como agua pelo ralo e o resultado na pintura estar bem longe dos nossos propositos, apesar de todo o esforco, liberou-se com gritos. Mas resolveu-se ai. 2 conhecidos brasileiros, tambem reparando seus barcos em Trinidad nos ergueram o moral. Pelo menos, se nao ficou como gostariamos, estava de novo bonito e apto a velejar. Reparacoes feitas, madeiras substituidas, leme sacado fora e reposto, tinha ate linha dagua azul no costado branco.
( Parte do time ) Na marina em que estavamos, se encontrava o veleiro Maravida, tambem para reparos, fora da agua. Conhecemos o novo proprietario, um canadense que logo traria a familia para a vida a bordo. Nos ofereceu e aceitamos todos os livros, em portugues, que faziam parte da antiga biblioteca. Foi mais um dos grandes presentes ate entao. 2 caixas de papelao, repletas !( Um ano depois, reencontramos o barco na Venezuela.) Da cidade, tivemos condicao de circular pelo centro e conhecer as marinas de Chaguaramas. As marinas, porque estao basicamente coladas. Lotadas dos barcos fora e mais centenas na agua. Fui buscar me inteirar do pais, que ate entao nem havia ouvido falar e aprendi que cresceu economicamente, em funcao da area nautica estimulada ha poucos anos. As marinas tem lojas com tudo necessario e pertinho, indo a pe, mais outras lojas boas, com materiais ineditos para nos, brasileiros.Todo tipo de maquinario necessario a qualquer reparacao. Comecamos, ali, a conhecer maravilhosos produtos para todos os fins, na area nautica. A populacao na maioria, e de negros falando um ingles danado da breca de entender, mao inglesa nas ruas ( primeiro contato com isso nao da pra negar o susto ! ) e a primeira maquina de coca cola que voce paga pelo copo depois toma o quanto aguentar. A gurizada quase montou barraca na loja pra usufruir. Virou assunto por muitas horas no Luiza...Da pra perceber que estavamos em " controle absoluto " de despesas superfluas. Gastamos quase todo nosso dinheiro viabilizando a "casa" e ainda tinhamos que segurar muito. Nosso objetivo concreto passou a ser Sint Maarten, por indicacao de outro brasileiro, conhecedor do Caribe e a par das nossas necessidades em fazer caixa. Este capitao captou a fundo as emocoes dos 5 tripulantes do Luiza e alem de sugestoes concretas, nos deu um tapinha na bunda, dizendo: coragem! Nos fez muito bem e nos conhecemos na hora certa... Nao sao 24 horas ao dia que voce tem certeza que vai conseguir... Trinidad ficou 3 vezes, para tras. Os tres homens da tripulacao, chegando do Brasil, aportaram aqui. Depois, Fernando e Gui ficaram 2 meses no mesmo local, reparando o barco que pegaram na Venezuela para levar ao Brasil. E agora, com o Luiza, todos juntos. Fomos a Tobago, perto e que faz parte de Trinidad. Costeamos todo o lado sul e leste da ilha e, em algum ponto la, com a mudanca de vento rapida, aconteceu um jaibe...Ninguem perdeu a cabeca mas o carrinho do lado de boreste pulou fora ( a retranca estava presa por um cabo bem ali...). E ainda ficaram dois "buraquinhos" no conves. Todo mundo ficou em silencio, olhando so " aquilo " retorcido. Ancoramos logo em seguida e no dia seguinte, conseguiram "meio" endireitar e foi reposto no lugar. Ficou assim por mais um ano... Em Tobago descobrimos o que e dormir mal num barco ancorado. Em todos os pernoites so pegamos o tal do " swell" otimo para surfistas ( Guilherme pegou boas ondas) , pessimo para velejadores. Se tivessemos ouvido falar em " roloes " acho que teriamos associado antes que o barco simplesmente nao para e voce, dentro, chacoalha sem ritmo e justamente sem a tal constancia de ritmo, arrebenta qualquer tentativa de dormir. Recolhi a Pandora pra cabine com medo que ela caisse pelas bordas la fora. Ninguem resmungou e isso comprovou que a situacao estava mesmo feia... Foi em Tobago que vimos os primeiros navios de cruzeiros, imponentes e me perguntei, certa manha,se alguem que nos visse de seus camarotes, saberia de fato o porque uma familia brasileira estaria ali... E descobri que nem nos 5 tinhamos uma so resposta para isso. De unanime, so que estariamos arrependidos em nao estar. Neste periodo a profundidade dos nossos desejos em reconstruir nossas vidas, abriu caminhos em cada um, de reflexao. Foi a olhos vistos que como mae, percebi adolescentes iniciarem seus passos na vida adulta. Apesar de estarmos em um veleiro, longe a ideia de perfeicao e romantismo que a imagem da vela provoca. Algo mais para uma batalha, so que interior, individual mas se entrelacando com a do outro, na pratica, para um convivio em tempo integral, diante de tantas incertezas. Demos a saida na imigracao do pais, rumo a Grenada e com os alisios, velejamos na primeira noite perfeita em que nao existiu nenhuma sensacao de estar faltando algo. 
( Retoques finais no fundo no momento do retorno a agua ) |