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    VENEZUELA

 

( Em terra de Hugo Chaves ! )

 

 

 ( Carlos Henrique e franceses, franceses....)

 

Foi um recomeco. E eu tinha consciencia que apesar de esposa e mae, agora entraria como ultima tripulante. (Tendo a sorte que as portas ou melhor, " gaiutas" para um retorno ao barco, nunca foram fechadas! ) A rotina ja estava imposta pelos tres que precederam a vivencia a bordo e a questao tornou-se, naquele momento, apenas saber como prosseguir nela. Nossa reacao bem humorada foi o primeiro susto favoravel que eles tiveram.

 

Ja estavam delimitados os espacos para nossas roupas, as ultimas, nos armarios. Era pegar ou largar.

 

- Nenhuma duvida: estava otimo!

 

Coincidencia ou nao, seria o meu dia de lavar o barco.

 

- OK.

 

E a funcao de lavar roupas voltou automaticamente.

 

- Sem problema.

 

E nao pode dar palpite.

 

- Opa, nao forcem!!!!

 

Estas questoes simples pra eles foi algo radical porque entre eu avisar que voltaria e assumir tudo isto, ha um longo caminho de credibilidade a ser encarado. E quanto antes melhor porque muito tempo havia sido perdido num contexto a 5...

 

Deu tudo certo: minha ansiedade com relacao ao veleiro e a sensacao de "pseudo-loucura " que esta vida implica tinham definitivamente ficado no Brasil. Ou continuavam em mim mas agora, aceitas. O tempo de esmiucar tim-tim por tim-tim esses sentimentos, havia acabado. Venezuela, entao !

 

A partir de 05 de junho de 2004 pela manha, minha casa voltou a ser o Luiza, agora de popa para o trapiche da Marina Americo Vespucio, em Puerto La Cruz. Uma mordomia so proporcionada pelo baixo valor mensal a ser pago, em bolivares. Algo na faixa de cem dolares com agua e energia inclusos. Direito a uma mesa fixa da propria marina e churrasqueira improvisada, sob a sombra de duas arvores. Alias, suporte tambem pra tres redes brancas de Fortaleza que vieram de carona no barco, desde la, junto com mais no minimo outras 100, iguais, de algodao, na mesma cor. Isto seria uma das fontes de entrada de dinheiro, na medida em que fossem vendidas e prometia ser a base do nosso sustento fora tudo de trabalho remunerado que fossemos capazes de achar ou realizar.

 

 

 

( Debora, loirinha mas a verdadeira latina ! )

 

 Aqui, o canal de acesso vindo da Bahia de Pozuelos tem mais ou menos 100 metros de largura e a rota de entrada e saida dos barcos porque a extensao total, conduz ao centro do distrito de Lecheria, tendo como shopping, o limite maximo. Ate la, todo bifurcado, com casas literalmente sob as aguas do que era antigamente um enorme manguezal... Os dingues circulam junto nestes canais porque e o caminho mais facil na rota do abastecimento e do entretenimento urbano.

 

O sabado chega com muitas marolas que de dentro dos veleiros docados, se comeca a sentir logo cedo. Sao os barcos e lanchas movimentando-se baia afora para desfrutarem as praias e as aguas transparentes da regiao.

 

A noite ou no entardecer do domingo o " rum " transforma os "capitaes " e estes, por sua vez, o canal em " sambodromo venezuelano " com direito a show que merece musica a todo volume e a danca derradeira do passeio, no conves, com as venezuelanas comprovando a fama de bonitas, em sua grande maioria.

 

Vira uma atracao para os homens. O balanco nos veleiros nem incomoda!!!!!

 

Alias, nesse momento, ha sempre uma desculpinha pra sair de dentro do barco, "descansar" na rede talvez, que esta logo ali na doca, de frente pro canal. Deslumbramento e um programao escancaradamento bom; essa a maior verdade.

 

Nao ha nacionalidade que resista...

 

A tripulacao masculina do Luiza pode apreciar bem de pertinho essa " zoeira gostosa " venezuelana, no dia que fizemos um day-charter , para 12 pessoas jovens, tendo 8 mulheres. Do canal direto para o nosso cockipt, o volume alto, a salsa, o merengue, o rum, o charme e a sexualidade sob o solzao dos tropicos!

 

( O cockpit de proa do Luiza aguentou firme o " festere" ! )

 

A grana foi uma mixaria mas a noite, apesar do cansaco, Fernando, Guilherme e Carlos Henrique, estavam euforicos . Facilimo de saber o porque...

 

Na hora de desembarcar, tinhamos 12 venezuelanos dispostos a nos fazer bem inteirados de seu pais. Sao muito simpaticos, prestativos e alegres. Isso e quase uma regra.

 

Os franceses que sao em massa, nossos vizinhos nesta marina, tambem atordoam com o " sangue latino". E muitos acham por aqui, neste pais, a forma mais primitiva de distracao, sem fazer forca.

 

Ha uma circulacao discreta na marina de venezuelanas em busca de programa. E fica facil entender: a maioria da populacao da Venezuela e extremamente carente, economicamente falando. Muitas ja tem um, dois filhos aos 17, 18 anos, senao antes. A perspectiva quanto aos seus futuros nao e das melhores. Os euros em suas vidas seriam muito bem vindos, fora a chance de talvez embarcar e ir embora em direcao a seguranca financeira.

 

Os velejadores solitarios e interessados, se dao bem.

 

Elas, no entanto, nem sempre conquistam mais que um dinheiro momentaneo e muitas vezes, depois da partida deles, ainda tem mais um filho pra sustentar.

 

Mas nao e uma realidade apenas para as venezuelanas.

 

A fama e a proximidade do Brasil, por terra, faz com que alguns franceses, "vao a montanha..." atras das brasileiras na divisa. Estas, por sua vez, na mesma situacao economica das venezuelanas e buscando o que tem como crenca de melhor pra suas vidas, em questao de dias, embarcam.

 

Deixam filhos para tras, as roupas velhas e se tornam parte integrante da vida dos solitarios.

 

Conheci de perto dois casos: no primeiro , a aventura terminou 3 meses depois. E ela teve que se virar para voltar da Martinica. Sem dinheiro, com uma estoria de violencia nas costas, com sonhos desfeitos, mais uma vez...

 

No segundo, onde a intencao do rapaz era honesta, o desfecho ficou por conta do destino. A caminho do canal do Panama, o veleiro em que ambos se encontravam, foi abalroado por um navio e ele morreu. Ela ficou a deriva mas foi resgatada com vida, dias depois.

 

Uma excecao mesmo porque as intencoes aqui, nao eram so festa.

 

Bem, descobre-se facilmente como proceder com os papeis de entrada, os custos e coisas basicas como aonde se faz compras, aonde fica e de que forma se chega la. Afinal, aqui a lingua e o espanhol e nos, brasileiros, dominamos facil esta.

 

Facil nada ! Ate os ouvidos acostumarem com o espanhol deles e a gente cair na real que nao fala nem o "portunhol" por aqui, vai um tempo. Mas compreende. ( E isto ameniza, em parte, a culpa por nao termos sido mais dedicados as linguas...) E quando eles disparam e surgem milhoes de palavras que nunca se pensou que existiam, suplica-se que seja mais " despacio ". Sorrindo, se retoma a conversacao num ritmo finalmente assimilavel.

 

Depois de uns dois meses, ali na convivencia diaria, vai-se pegando o jeito. Conseguimos nos sentir mais seguros ate pra perguntar sobre politica, Chaves, coisa e tal. Ate porque ja se aprendeu neste periodo que perguntas como estas nao vao precisar de nossas respostas ou opinioes. Nao queremos ( e nem temos vocabulario! ) para nos posicionar alem do que eles sao acalorados no tema e nos, estamos ali de uma forma light, nao para discutir as questoes politicas. No entanto tudo visivel: da sujeira nas ruas , passando pelos carros caindo aos pedacos ate o encontro diario com Chaves, pela televisao, nos horarios mais loucos e inesperados. Com boa oratoria e sobre temas dos mais diversos ele interrompe a programacao. Se for um filme, corta ali a transmissao e voce perde o fim. Nao ha retorno. Tenho, desde esse periodo, varios filmes que preciso ver o final porque so o inicio consegui assistir...

 

 A rotina dos velejadores que estao parados aqui nao envolve pressa.

 

Estaremos inevitavelmente ate meados de novembro no pais.

 

O reparos que podem ser feitos nos barcos, por nos mesmos, vao em ritmo lento. O calor nao deixa nem pensar ate que o corpo acostume e a propria temperatura externa, baixe.

 

Os que sao feitos pelo pessoal da regiao, ditos especializados no assunto ( velas, motores, etc) acontecem num ritmo muito, muiiiito mais lento. E haja paciencia... No entanto, a razao nao o calor: um ritmo latino, muito "maroto" mesmo foi sendo aperfeicoado em funcao da velha lei " procura X oferta" com o agravante que franceses e americanos, com suas moedas, inflacionaram os precos. O valor da mao de obra e de alguns produtos esta totalmente fora da realidade do local e de quem acha que aqui e o paraiso para os reparos. Anos atraz, deve ter sido. Raro qualidade com preco bom, pelo menos para nos que temos o real como base de calculo e, no nosso caso especifico, poucos.. Aqui pagamento e na cotacao do dolar apesar que sao os " bolivares" a moeda oficial. Bem, franceses, belgas, americanos invadiram a area dando com isso a " deixa..."

 

A gente no Brasil esta bem acostumado a tudo isto mas estes velejadores daqui vao ter que aprender. Rebolar mesmo!

 

Os que frequentam estas paragens ha mais tempo ja estao contando para os novatos e estes, comecam a perceber que nao, nao e possivel o rotor da bomba da agua do motor de POPA custar 200 euros...!!!

 

A convivencia e muito proxima, fisicamente, na medida em que vao chegando os veleiros, descendo do Caribe com a intencao de se abrigar e os espacos vagos entre os barcos vao sumindo.

 

A gente se ve obrigado a gesticular mais do que nunca, mesmo que nao tenha isso como habito, para haver uma comunicacao basica com os vizinhos franceses.

 

Ninguem no Luiza fala frances e nao faz falta para o dia a dia. O que ocorre e que ambas as partes vao evoluindo e se entendendo no minimo basico do frances e do espanhol ( ou algo similar ) e se houver um rum por perto, o dialogo pode vir a se tornar " fenomenal".

 

(Dai que se descobre o quanto eles sao passados para tras, em estorias como a do rotor da bomba).

 

Descobertas a parte sobre o povo, a regiao, o clima, a politica, as festas, a convivencia a bordo no Luiza flui em eficiencia e alto astral nao vista no primeiro periodo. Todos estamos de olhos abertos e Fernando e Guilherme conseguem uma boca pra levar um barco para o Brasil, via Trinidad e Suriname. Foi uma boca mesmo so que das bem desdentadas mas que acabou final de outubro com ambos retornando de Belem, com missao cumprida.

 

Debora conseguiu fazer um trabalho como promotora da cerveja Bhrama ( essa mesma que tem ai...) nas " licorerias " dos municipios ao redor de Puerto La Cruz, vivenciando o imenso habito que o povo venezuelano tem de beber, virando em consequencia disso, mais galanteadores ainda !  Utilizou parte de seu dinheiro para embarcar Pandora, nosso labrador negro. ( O setimo elemento...)

 

Caique ( nosso Carlos Henrique ) trabalhou como garcon uma noite, vendedor de nossas redes e negociador assim como em todos os trabalhados a serem feitos, na medida do possivel, no Luiza.

 

"Cacei " a ideia do capitao em fazer empadinhas e doces gelados e me agarrei nela, vendendo na cantina da marina e aos finais da tarde, junto com o famoso " pao da Debora ", para os velejadores vizinhos.

 

Foi um revezamento entre nos tres que ficamos no barco enquanto os outros dois estavam nos mares, la fora, bem na epoca que o furacao Ivan passou...

 

Tambem foi um periodo onde os jovens do Luiza que ficaram a bordo, se relacionaram com os jovens locais e conheceram todas as " rumbas " da regiao. Nada como vivenciar as questoes locais e eles ate hoje se lembram deste primeiro periodo por la, com muita risada e sabor de " ressacas ".

 

Certamente exageram na quantidade de noitadas. Foram mais do que a proporcao esperada pelos dias que ficamos por la...

 

Enfim, " nem so de desafios vive o homem...", neste caso, nossos jovens....

 

 

 

 ( Guilherme gostando do " trato" )

 

 

 
... Na Venezuela
 
 

 

Vendemos pouquissimas redes, mas vendemos.

 

Para franceses e o porteiro da marina ! 

 

      Baratas !

 

Agua abundante, banho na popa,  com mangueira. Alguns franceses, pelados.

 

 " Compramos"  um dingue italiano

 

pagando com uma churrascada e

 

3 redes. Caiu do ceu !!! 

 

 Fernando e Caique detidos pela

 

Guarda Costeira por nao termos

 

bandeira de cortesia hasteada.

 

Amigos, de um barco frances,

 

se despediram tocando uma

 

musica com gaita de fole, em seu

 

cockpit. Choramos todos. 

 

 Estamos em quatro veleiros,

 

bandeira brasileira, por aqui...

 

 Compramos um ventilador de

 

mesa, uma tv 14 polegadas e

 

uma geladeira 110 volts.

 

 18 anos de Caique ! Mexilhoes

 

no oleo de "dende" e torta de

 

morangos.

 

 Festa de arromba num veleiro

 

escuna: banda de calypso,

 

champagne e porco no rolete.

 

Todos ficamos de ressaca.