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Acores

 

Meses antes, ao olharmos no mapa mundi, este arquipélago, quase desisti de ir por mar. A quantidade de água ao redor e mais a imaginação me fazendo enxergar nosso barquinho como um grão de areia, na proporção,  deu o maior frio de barriga ate então...Os dias passaram, controlei minhas fantasias e estava agora saindo do ancoradouro seguro das Bermudas e entrando no tal * trecho *. Saudando-nos, apesar da linda tarde de sol e vêntos para lá de moderados vindos da direção perfeita para uma bela velejada, o mar trouxe de imediato enormes rolões vindo de noroeste, lá das altas latitudes. Não deu outra: em segundos comecei a marear e ali tive a nítida certeza que era de medo. Foi apenas comigo porque Fernando e Guilherme nem haviam notado e estavam felizes da vida com as condições do mar.

Foram os primeiros *swells*, de muitos.

 

 

Pandora pronta para a travessia...

 

 

Foi feita a navegação para procurarmos os ventos de oeste pela beirada das zonas de calmaria, normalíssimas naquelas latitudes. Poderíamos ter que ir ate a 40 N para só então novamente aproar para a 38 N,  mas ninguém queria ficar exposto as tempestades comuns da tal latitude.

...E a tempo, foi na 42 N que o Titanic naufragou batendo em um iceberg.

 

 Velejamos e motoramos ate o limite da latitude 38, variando ate dois graus abaixo e encontramos, conforme previsão da meteorologia, os tais ventos de oeste, moderados. Muitas vezes moderados demais (… ninguém nunca esta satisfeito, não esqueça!…) porque se não fossem as correntes favoráveis, teríamos ficado boiando por lá bem mais do que nossa paciência estáva disposta a aguêntar. 

 

 

 

 

 

 

Foram dias muito parecidos entre si, no tempo quente mas agradável, no frescorzinho das noites, na ausência de mais peixes, no barulho conhecido do barco , nas partidas de “ Trilha” entre Fernando e Gui, nas refeições, no visual dos golfinhos se aproximando e brincando na proa do Luiza, das tartarugas grandes nadando na superfície e das “ caravelas “ aproveitando o embalo das correntes ( tipo pequenos leões marinhos ).

 

 

 

( Matilde e Maria hehehehehe)

 

 



Faltando ainda umas 1000 milhas, novos rolões grandes apareceram primeiro e depois um final de tempestade, rasgando nossa mestra numa manobra ate bem caprichada, mas não tanto quanto poderia…
Nossa gênoa foi quem nos levou nos próximos dois dias deixando o barco seguir em frente mas com a famosa sensação de desequilíbrio no meio daquele marzão de altas ondas.
Nossos costureiros de plantão trabalharam neste período para costurar, entre mareados e ansiosos em terminar a tarefa.

 

 Fiquei de vigia lá fora sem muita alternativa com o que me entreter e acabei por observar com olhos bem abertos todos os aspectos das tais ondas, descritas em tantos livros sobre essas latitudes. Eram lindas, com tons do azul clareando na medida em que quebravam nos seus topes e absorviam toda a luminosidade do sol, chegando ate a transparência e trazendo junto o ruído. Preferia não te-las visto de tão perto, mas não me arrependo de te-las conhecido… Calculamos que eram entre 3 e 4 metros.

 

 

                   

 



Depois disso, o retorno dos poucos ventos enquanto lá pelos 40 ocorriam tempestades fortes, com intensidade 8 empurrando ventos e mais ventos para a Inglaterra, ocasionando enchentes na costa e aproximações daquele pais. Ficamos na expectativa de que inclusive, uma dessas tormentas, nos pegasse. Estava na previsão o seu deslocamento ate a latitude em que nos encontrávamos mas por sorte, só vieram novos rolões, monumentais mas não assustadores de fato.

 

( Enxergue sashimi e fritada ! )

Foram 17 dias de travessia. Duas semanas e mais 3 dias que vivemos as 24 horas de cada um daqueles dias de uma forma para nunca mais, em todo o resto de nossas vidas, esquecer.
Poderiamos ter estado em terra, trabalhando. Poderíamos estar levando a vida como se faz: acordar, sair, voltar, ver tv, dormir. Poderíamos estar fazendo compras. Poderíamos estar com parentes e amigos, em um churrasco. Poderíamos ter feito planos para o final de semana. Poderíamos tantas coisas que já havíamos feito ao longo de toda aquela nossa vida em terra, mas não… Estivemos ali, querendo chegar a Açores e fazendo com que não fosse apenas um desejo. Sentíamos de novo a forca de nossas motivações para não virar historia pra boi dormir.
 

 

( Segura tudo! )

Guilherme optou em vir no Luiza, fazer a travessia para a Europa. Perdeu sua passagem aérea para o mesmo continente para ser, mais uma vez, um tripulante de corpo e alma.
E nos três, absolutamente em equipe ( mas não exatamente nas mesmas tarefas…), convivemos 308 horas
sabendo que muito dependia de nos em cada segundo seguinte e no próximo e no outro, ate encontrarmos de novo terra.
 

 

( Cotidiano )


Existe ansiedade. Existe cansaco pelas noites mal dormidas, entrecortadas por turnos. Existe monotonia. Existe mal estar do mar. Existe restrição de espaço. Existem diferenças pessoais. Existe dor de barriga. Existem riscos. Existe o mar. Existe o barco. Existem diferenças de enfoque. Diferenças de personalidade. Nada e linear totalmente programado e perfeitamente executado. Humanos, família, barco, convívio. Verdadeiro aprendizado de relacionamento humano em tempo integral e para não virar lenda… Ah, e mais um cão! 

 

( Relaxar e curtir dor nos dedos depois da sessão "costura vela".)

Visualizamos algumas das ilhas do Arquipélago de Açores no dia 06 de julho.
Pandora, com seu faro infalível foi a primeira a tomar uma atitude: sentou na proa, sentindo todos os aromas da aproximação. Corri para pegar a maquina fotográfica, a filmadora e comecei como uma louca a clicar. Tirei muitas lindas fotos e parei. Cai em mim que era tão único o que estava vivendo que valia mais era o momento, gravado em mim, na retina, na memória, nas células que ganhei de meus pais que longe de imaginar, se ainda fossem vivos, que eu estava chegando por mar, em um barco de madeira, numa ilha chamada Faial…

Nos encantamos com a altura dela, saindo da mesmice de superfícies planas… e com seu porto totalmente construído, transformando em espaço protegido o acesso e a grande marina, lotada de tantos outros veleiros fazendo uma parada em suas travessias e utilizando esta pequena cidade como porto.

 

 

 

 

 

 ( Entrando na marina protegida pelo mole comercial )


Novidades, descobrir a imigração e, depois de cinco anos, ouvir o português ao se chegar em pais desconhecido. Apesar de todas as diferenças de sotaque que já sabemos e do diferente sentido de algumas palavras, enfim o contato fácil com a língua ajudando em absolutamente tudo, a nosso favor. Que beleza!!! 

 

( Uma parte da marina )

Entramos na comunidade européia por Açores, portuguesa com certeza!!!!
Na marina, pela primeira vez, paramos nosso barco contra bordo com outro e com acesso por ele, para a doca! Bem, com tanto veleiro por lá, essa realmente era a única opção para ter espaço pra todos.
Diferente mas sensato.
 

 

( O famoso contra bordo )


Todos tratamos de sair, andar pela linda marina enfeitada com desenhos e recados de cada barco que ali passou, em diferentes anos e com seus nomes peculiares, transformando os muros e pisos em divertido entretenimento visual.
Muito boa a sensação em saber que cada um daqueles nomes havia chegado efetivamente ate ali depois de muitos dias de mar, fosse da direção que houvessem vindo e que também haviam conseguido!!!

 

 

( Cor da água na marina )

O cansaço acumulado nos pegou depois da primeira refeição já atracados e foi somente no dia seguinte que começamos a desfrutar da liberdade em ir e vir, pelos próprios pés, ate a padaria. Como liberdade tem varias facetas nesta vidinha…

 

( Doca!  Terra!  )

 

Conhecemos tudo o que tínhamos direito e o que nos fez sentir feliz demais em 5 dias por la. Mas Fernando e eu nos contentamos mesmo foi com muito café tirado da maquina na padaria ha poucos metros da marina e servido sobre o balcão acompanhado com um pãozinho d’água fresco, quente e com gosto de quero mais. Coisa familiar, do trajeto pra casa, com lembranças e aromas de bairro. Tomar e comer em uma mesa simples, limpa e ver mães, pais, vizinhos passarem ali levando para casa o pão nosso fresco de cada dia. Fregueses e atendentes se chamando pelo nome; velho conhecido numa cidade que tem tempo para este bate papo que não leva a lugar algum, mas que aquece o fim do dia... Portugueses simpáticos, sorriso acontecendo no rosto quando no comum encontro  de olhares.

Foi um programa imperdível ao final de cada dia para nos dois e logo em seguida, Gui nos acompanhou.

 

 

( Voltando do supermercado.)

 

Os preços aqui nos surpreenderam. Eram viáveis no pão, no leite, nas frutas, na comida de uma forma em geral.

Claro que em euros e claro que mais caros que no Brasil mas diante da velha historia quanto a grana, sem exagero como aconteceu nas Bermudas. Pão d’água: 0,15 de euro. Pão de forma: 1,50 euros. Com a valorização da moeda e o diabo junto, longe dos 5 dólares no mesmo pão naquela ilha...Ate por isso o café, o docinho, a revista e o jornal mereceram nossa visão de uma forma bem mais amorosa. 

 

 

Você pode achar que justifica tanto romantismo porque afinal, 17 dias no mar sem pão fresco etc, etc... Parte você tem razão - mas alem disso era o lugar, o ambiente, aquilo que se fosse gente poderia falar em charme. E reencontrar atravessando uma rua , vendo as pessoas na sacada, algo que fez parte da tua vida ha muito tempo lá atrás  e foi bom. Agora de novo, ao alcance das mãos.

 

 

Estamos vindo de muitos lugares. Temos conhecido diferentes lugares. Temos estado mais tempo em alguns deles.

Faial nos remeteu somente a coisas boas e doces e sua beleza histórica, foi mero lucro.

 




 

Nos, outros velejadores e Skippers aproveitando o mesmo propício período para conduzir barcos e veleiros. Reparar e preparar seus barcos para a próxima etapa. Depois, aproveitar o final da tarde, momento de relaxar, tomar uma cerveja, caminhar pela cidade sem compromisso. De tudo um pouco ( alguns, Muito! ) do que se pode fazer em terra...

 

 

Um casal de outro veleiro, na madrugada, fez amor no convés do barco  mesmo com Guilherme no cockpit ha 2 metros, em outro,  escrevendo no MSN com seus amigos, pela internet wi-fi, sinal comprado por uma semana.
A historia contada em detalhes  em viva voz pelo Gui, na manha seguinte, nos fez dar risada ate as lagrimas porque a gemeção nos acordou, sonolentos mas pareceu vir de algum site pornô da internet, que supúnhamos Gui havia conectado contrariando os riscos eminentes de ficar com todos os vírus em nosso computador!!!!

Liberado o tal casal, com certeza,  de uma forma bem maior que a nossa porque ao longo destes anos todos, temos esperado o "nosso" melhor momento, as vezes dificílimo de encontrar... Fernando e eu temos a nítida impressão que filhos serão eternos filhos com relação a privacidade dos pais: tem como distante ou ate inexistente...Talvez ate concluam que sexo e feito só lá pela faixa dos 20, por onde todos ora se situam...

Independente de conversarmos francamente sobre o assunto, no inicio insinuamos, depois foi falado explicito e ainda solicitado que todos fossem passear Hoje, Agora! ao Mesmo Tempo!!!...Adaptamos-nos finalmente.

Com todos a bordo havia virado recordação amor, sexo, chame como quiser...e na medida em que entravam e saiam do Luiza, as brechas se abriam...Com apenas Gui, certamente ficou mais facil mas ha distancia sim dos tempos de casa e vida em terra onde uma porta limita o espaço sem deixar explicito que será naquele momento e durante o período em que a porta estiver fechada...

A famosa cena romântica do veleiro num mar lindo com sol poente e o casalzinho fazendo " amor " ou "sexo selvagem" no cockpit do barco, so mesmo se estiverem sós. E "se" o tempo permitir tirar o olho das velas, ninguém estiver mareado, tiver conseguido tomar um banho pelo menos nos dois últimos dias e a mulher não tiver sofrendo de calorões, porque entrou na menopausa e nem ela sabe o que fazer com isto.

 

 

 

( Oi filharada, oi mamãe!!!)

 


Limpei panelas com carinho, lavamos roupas pagando em euros, trocamos a gênoa por uma mais resistente e menor.
Andamos de bicicleta, conhecemos um brasileiro batalhando mundo afora, tendo vindo do Brasil ( Salvador ) com um casal de francês, arrojados, que fizeram linha direta ate Açores, durante 36 dias sem escalas em um veleiro 36 pés. Iniciando neste mundinho náutico ( com o apoio dos pais, mas também sem dinheiro) de meu Deus que e mais uma escola de vida…

Certa tarde, jogavam xadrez ele e Guilherme enquanto eu tentava conectar na internet quando a Imigração se aproximou, chamou o capitão e solicitou permissão para entrar e vistoriar o Luiza.
Foram 8 oficiais no total , educados mas “ bisbilhoteiros “ o que aos poucos nos trouxe a certeza de algo estranho alem do que poderíamos considerar normal ou melhor, achar, porque nunca havíamos sido “revistados” desde a saída do Brasil…
O chefe entregou o jogo quando perguntei objetivamente: - Procuravam drogas?
- Sim…houve denuncia…, respondeu.
- Denuncia e lugar errados, respondi.

Fato que assim como vieram, se foram, ate tristes por nem bebida alcoólica termos em estoque. Por procurarem ate dentro das caixas lacradas de água e …nada. Claro que por nos, poderiam ate desmanchar o Luiza que nao achariam nada pelo simples fato de nunca termos tido nada ilegal a bordo. Agora, se anos atras estivessem procurando por redes… aiaiaiaiai….
Ainda brincamos:
- Traficando por este mundo afora não teríamos mais um barco de Madeira, antigo, constantemente nos obrigando a correr atrás de trabalho para mantê-lo como nossa casa flutuante e como veiculo dos nossos desejos…
Enfim, registramos no diário de bordo, fomos dormir estressados e no dia seguinte, resolvemos que era hora de ir.

Ligação para Débora e Caíque, já na Itália trabalhando no inicio da temporada de verão, avisando que estávamos de saída para a ultima perna antes de velejarmos dentro do Mediterrâneo. Sabiam que ainda seriam muitos dias de mar para nos e nos deram milhões de recomendações para entrar no Estreito de Gibraltar.
- Beleza pessoal, logo a gente se fala. Beijussssssss!!!!!

 

 

( Esportista nata! hehehehehehehehe )



 

Desenhamos rapidamente o nome do Luiza dentro de um circulo azul, nas cores da bandeira brasileira, na doca, próximo da onde estivéramos por aqueles dias. Poderia ter sido mais caprichado, muito mais bonito, mas de qualquer forma, o tempo vai apagá-lo. As cores sumirão. De verdade, e só um símbolo porque o fato, pra nos, foi o que contou. Como cada barco brasileiro que passou por lá sabe, como cada profissional do mar sabe, como qualquer embarcação que passou por lá aprendeu.


Caramba, as dificuldades para se chegar a um arquipélago como este a gente foi entendendo na medida em que fomos velejando….
Ter ô  barco ideal ou deixar próximo do ideal aquele que se tem, a verba para viabilizar ( porque de longe por avião e mais barato ) ou encontrar o barco certo para capitanear, profissionalmente. Diferentes formas mas todas a algum custo, com certeza.


Um casal amigo nosso passou por Açores na mesma temporada, ele como Skipper e sua esposa, tripulante. Sabemos da garra que tiveram ao longo dos últimos anos  e que não foi em um piscar de olhos que as coisas passaram a acontecer…Aprendizado, firmeza cada vez maior nas decisões, trabalho, audácia, perseverança.
Sabemos de nos, o quanto tivemos que batalhar em busca de dinheiro, em cada porto, em cada ilha, em cada continente, atraves dos mais variados empregos. O quanto trabalhamos nossas cabeças a bordo e independentemente. O quanto nos obrigamos a entender cada situação sob os mais variados ângulos, em nome de harmonia e conciliação familiar ( entenda-se aqui, tripulantes…)
Sabemos o quanto mais poderíamos ter feito e colocado no Luiza mas também sempre soubemos que não velejaríamos como aposentados patrocinados ou com retaguarda financeira para viabilizar tudo quanto fosse necessário.
Optar entre tudo que e necessário de básico, o alem do necessário e segurança.
Listar e fácil. Possuir tudo, dificílimo.
A balsa salva vida seria importantíssima mas o dingue teve que substituir. No entanto, todo outro material de salvatagem veio a bordo…
Conexão pela internet outro equipamento de enorme ajuda: nem pensar…
Cada questão, algumas soluções. Cada decisão, alguns riscos.
Como sair de casa e morrer atropelado.

Vira uma polemica. Vai da cabeça de cada um ate onde aceita, compactua, lhe faz bem, pode fazer melhor, tem outra solução e conseguir executá-la.

Temos como mais uma de nossas verdades que radicalizar nunca vai levar a lugar algum. Nem 8 nem 80.

Como o casal que namora anos e espera ter dinheiro para mobiliar a casa para casar. Lógico e mas ate onde e necessário ?

Como plantar o carvalho e esperar o tempo de aproveitar suas frondosas sombras ? E se não tivermos mais tempo?

 

 

Quando escrevi que serão este 17 dias um tempo para nunca mais esquecermos, explico agora que somente o tempo que tivemos para pensar nas difíceis decisões que tomamos ha 5 anos atrás, valeram a pena. Toda a capacidade que adquirimos em colocar por terra muitos dos nossos antigos conceitos, valeu.

 

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