Uma ilha linda, democratica, para ricos, milionarios, famosos, viciados, aventureiros, pobres e trabalhadores.
Tem do veleirinho caindo aos pedacos ao mais luxuoso dos barcos e tudo que isso implica.
Marinas com docas enormes. Marinas mais caras e menos caras. Toda a infra-estrutura em algumas delas, como lavanderia, supermercado, hotel e sistema de Wi-fi para internet. Nas outras, se nao tem dentro do espaco fisico, ha ao lado. E, fora isso, e so ligar que ha empresas que se encarregam de trazer na porta o que houver de necessidade para os grandes barcos ( veleiros ou iates ) que trabalham para charter.
Turismo e turismo !
Os cruzeiristas, como nos, param no grande lago e fazem dos seus dingues o meio de locomocao para a terra, logo ali. Voce deixa seu dingue estacionado sem pagar nada, seu lixo na primeira lixeira que encontrar e ja parte para a primeira cerveja se quiser, porque esta regiao de Simpsom Bay esta lotada dos barzinhos.
Soa a " vida ", " agito", sangue rolando nas veias.
Mas se voce nao gostar, do mesmo jeito pode ficar na ilha...
Existem varias praias na regiao, lindas, de aguas clarinhas com areia branca. E voce tambem pode circular por toda ela ( a ilha ) independente de ter entrado pelo lado holandes. Ha uma fronteira imaginaria porque o outro lado da ilha e frances. Super interessante este fato. Brincavamos que iamos para a Franca e de dingue, realmente estavamos la em questao de 20 minutos. Vinhos, queijos, pates e embutidos. Precos maravilhosos. Ate para nos. 2 euros uma garrafa de vinho, das boas, tendo tambem com valores mais altos, com certeza para outros bolsos...
A escolher, de ficar zonzo!!

( A ponte,vista do lagoon sentido Simpson Bay )
As morenas francesas sao muito bonitas. Todas negras, populacao negra que se perde em meio a tantas outras racas de tantas nacionalidades que circulam, no periodo de ferias, nestas bandas.
Mas nos, com apenas 40 dolares americanos nos bolsos, depois de pagar a Imigracao por um mes, tinhamos que correr. E tratar de entender rapidinho o ingles deles porque e a unica forma de comunicacao desse lado da ilha.
Caique e eu fomos os primeiros a sair do barco e trabalhar em terra. Ele em servicos gerais numa oficina nautica e eu numa lavanderia. Logo depois Guilherme, vendendo empadinhas, conseguiu um trabalho como marinheiro em um veleiro que estava nos EUA. Debora comecou a trabalhar num megaiate, arrumando internamente e cozinhando. E Fernando, numa firma de reparacoes de barcos.
As portas haviam se aberto. Acreditamos na luz no final do tunel. Achamos. Ou merecemos. Ou demos sorte. Ou fomos obstinados. Nao importava mais... Em 10 dias a ilha passou a ter cinco pessoas que circulavam por suas ruas sentindo-se felizes.
Ninguem perguntou o que tinhamos ou o que eramos mas o que sabiamos ou o que podiamos fazer.
Nos nao perguntamos qual o horario que trabalhariamos nem em quais dias, mas comecamos no horario combinado. Nao houveram mais finais de semana. A rotina de dormir cedinho acabou. O corpo de todos sentiu. Nos viamos pouco mas nos falavamos por radio VHF, felizes.
Cada um teve que dar o seu melhor e quis faze-lo. Aprendemos o que nem tinhamos ideia que seriamos capazes. E o Luiza voltou a ter coca-cola .

(21 anos de Debora, com Guilherme e amigos )
...La na Venezuela, foi feito um acordo entre os cinco: metade do que cada um ganhasse seria para o Luiza. Com a outra metade, o dono faria o que quisesse. Assim, houveram momentos que um trabalhou e sustentou os outros 4, mais o barco, mais o cao. E depois, inverteu, na medida em que aquele nao estava trabalhando. Era preciso trabalhar mas foi respeitado o direito de escolha e estes periodos, para alguns foram mais longos. E, se alguem saisse do barco, teria o direito de ficar com 100 por cento para si. A uniao fez a forca. E muitas vezes os 50 por cento que nos cabiam, foram colocados no Luiza ou emprestado pra um irmao que ja nao tinha mais bermuda e precisava para ir trabalhar. Ou dado.
Enxerguei a nos cinco dando valor ao que era necessario, mais uma vez. Nao houveram mais brigas, so objetivo comum: poder sonhar, crescer, aprender, olhar pra frente, decidir. Quantidade havia ficado pra tras: comecamos a vivenciar a qualidade de vida. Eramos sim muito loucos. Eramos sim muito aventureiros. Fomos medrosos quantas vezes e mais de cem, no minimo, nos perguntamos se conseguiriamos.
Trabalhar no que, fazer o que...Sou velho, sou velha, caramba! nem sei falar o ingles !!! Enfim...
Reencontramos um grande amigo sul africano que nos ajudou muito e conhecemos outros que vieram acabar aqui, como nos. Com periodos bem mais longos no mar, com suas vivencias em terra, com suas proprias buscas. Muitos finais de tarde tomamos cerveja com eles, apreciando o por do sol por tras dos grandes barcos, docados logo ali.
Na medida em que os meses foram passando, chegaram outros veleiros brasileiros . Alguns ficariam por ali ate o final da temporada e seguiriam rumo Europa, mas a grande maioria voltaria para a Venezuela. Afinidades maiores entre alguns mas o grande fato e que amigos nao tem nacionalidade. Nem se escolhe. Acontece. E o tempo parado num mesmo lugar viabiliza isto, sem pressa e as diferencas de idiomas vao sumindo.
Nesta temporada Caique foi o primeiro a embarcar num megaiate e trabalhar para um capitao americano. Saiu de Sint Maarten em fevereiro de 2005 e fomos ve-lo, meses depois, com uma saudade de doer no peito, no proprio Lagoon, para reabastecimento e novo charter.
Debora e Guilherme trabalharam um periodo juntos, tambem num outro iate mexicano, para um capitao brasileiro.
Meses mais tarde, Guilherme seguiu com o barco para os EUA e Debora optou por ficar conosco.
Nos fomos arrumando o Luiza, reparando os maiores estragos e nos detendo sempre nas prioridades.
Veio um fogao novo a bordo ( agora sim !!! ), um freezer e uma geladeira 12 volts. Compramos uma vela mestra usada. E cabos. Substituicao daqueles que aguentaram violentamente todos os trancos e que cansaram, dada a idade...Fora os que a Pandora comeu.
Fiacao nova para tentar, em definitivo, romper o ciclo imposto pelo cao: come X arruma e epoxi. Dois componentes, para restaurar todas as madeiras onde ela tambem afiou seus dentes nos tantos momentos que ficou sozinha no barco, no meio do Lagoon, enquanto trabalhavamos.
Quando nao estavamos em terra, no batente remunerado, estavamos com certeza arrumando o Luiza. Gerador para carregar as baterias, abastecimento de agua em galoes e dai no dingue ate o posto e vice-versa, televisao a noite e cama!!! Mas televisao era o maximo porque velejando, a gente nem lembrava de sua existencia. Velejando ou parados, se conversou muito, jogamos muito baralho, lemos muito, mareamos muitos, silenciamos muitos, vivemos muito. Ali, agora, trabalhamos muito.
O centro da ilha, o lugar das compras e aonde param os navios de cruzeiros e mais ao sul de Simpson Bay. O nome e Phillisburgo e ir ate la, de van ( mesmo estilo Grenada ) era um passeio. Ja a capital do lado frances tem o nome de Marigot e fica ao norte.
Conhecemos muito pouco nesta temporada, da parte geografica, fisica da ilha e das belas praias que descrevi no inicio. Nao havia ainda condicoes financeiras para o turismo, propriamente dito. Mas conhecemos as pessoas locais, muitos brasileiros que moram por la e comecamos a entender do mundo nautico, sob um prisma ate entao desconhecido. O dos barcos para aluguel que estao no " ar " a cada temporada regida pelas ausencias dos furacoes: ora no Caribe, ora Mediterraneo e ainda, no Pacifico. Uma industria fascinante para quem gosta do mar. Algo numa escala sem comparacao ao Brasil. Em tamanho, volume e na economia que gira.
Nesta ilha, paramos definitivamente de pensar em reais por uma simples questao: entrava em dolar e se gastava em dolar. Neste raciocinio, passamos a escolher o que consumir mais barato, em dolar. Muda tudo de figura porque nossa realidade nao esta baseado numa moeda que foi nosso padrao. Estavamos vivendo onde ela nao existia. Estocar comida, somente como seguranca. Mas comprar, onde se esta. Ha de tudo em todos os lugares. O mundo esta globalizado. Alimentos idem. Suprimentos basicos em todas as ilhas e os mais elaborados, em marcas diferentes das nossas conhecidas, nas ilhas maiores.
Nao temos, no dia a dia, o habito de beber e diria que e um lucro, porque cerveja e caro nesta ilha. Ja cigarro, nosso vicio ( que meleca ! ) doia no bolso, furava mesmo ( 2 dolares o maco ). Uma xicara pequena, das nossas, de cafezinho, 2 dolares. Se transformar para a moeda real nao fuma, nao bebe e nem toma cafe.
Nossos filhos comecaram a abrir horizontes, conhecer um mundo real diferente e tambem a situarem-se como individuos. E nos, a respeitar suas novas decisoes e compreender um pouco melhor as nossas. As tais respostas que so existem quando nos permitimos fazer novas, diferentes e ate arrojadas perguntas. ( Alias, convencionou-se o contrario mas ha um mundo inteiro novo se buscamos fazer as perguntas, sem nos preocupar com as respostas...)
Saimos dia 9 de junho rumo Venezuela, para nos esconder dos tao temidos furacoes. Agora Fernando, Debora e eu.
( Caique )