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REPUBLICA DOMINICANA

 

( Pelas Ilhas Virgens, Porto Rico em direcao as Bahamas )

 

 

 

 

 

 

 ( Porto Rico  )

 

O caminho para a America do Norte passa por terra, por ar e por mar. Passa tambem nos nossos pensamentos. Ha os que conheceram e nao gostaram; ha os que nem desejam conhecer e haviamos nos, ansiosos em desvendar impressoes que pertenceram somente a quem por la efetivamente esteve.

 

Alias, nem sempre precisamos ser como Sao Tome mas que agrada e concilia com a sede pelo novo, isto e fato. Anos, muitos anos nos acomodamos ao perto, ao permitido, ao "lugar comum", da forma convencional e nos esgotamos...Reencontramos, ambos, Fernando e eu a forca interna para seguir adiante e uh! uh!, fomos nos.

 

Alegria a parte, nauseas novamente a bordo...85 milhas entre Sint Maarten e Ilhas Virgens Britanicas, Tortolla capital, nossa primeira parada. Tivemos que nos adaptar de novo porque todo o tempo na marina parados, retira, saca fora o habito de estar no mar. Sorte que volta rapido. Foi o capitao que aguentou o trajeto no braco porque o piloto automatico nao havia sido ainda calibrado e o mar, mexido, nao permitiu. Chegamos pela manha, com o nascer do sol apos 15 horas. O vento ajudou por nao estar excessivo, mar colaborou e jogamos a ancora no mesmo lugar que haviamos nos agarrado a uma boia, la atras, ano e meio passados...Mudamos durante o dia de lugar e la pernoitamos. Lugar dos mais belos que nos comeu, na saida, nossa corrente e  ancora principal. Sobrou a de reserva, cabos e dois metros de corrente ( que era a de seguranca do dingue! ). Situacao nada boa, sem duvida...Naquela noite, dormimos agarrados numa das muitas boias espalhadas pelas Ilhas Virgens e arredores. Pertencem aos Moorings e existem taxas que nos nem vimos o valor porque logo cedo fomos embora, para as Virgens Americanas atras de ancora e corrente.

 

Chegamos no inicio do final de semana prolongado em funcao da Pascoa e estava tudo fechado. Ainda tentamos, deixando o Luiza numa boia " de alguem " enquanto buscamos, de onibus, algum lugar aberto. Nada mesmo e na volta, um papel desenhado uma caveira e " get out " nos ajudou a ir embora desse jeito mesmo. Sem condicoes de aguardar decidimos seguir para Culebra, sempre com previsoes do tempo por radio SSB e no proprio VHF, para todas as regioes das Virgens e Porto Rico.

 

Tempo perfeito, ventos amenos para cruzeiro tranquilo, luminosidade suportavel de oculos ( que tristeza...), biquini, bone e mar.

 

De repente, um estrondo dos bons e paramos...Fracao de segundo ate agirmos: Fernando soltando as velas eu reabastecendo o tanque com diesel, gritando com Pandora para deitar e em seguida, nos afastavamos do maldito coral...Que susto ! Sabiamos de todos na regiao mas ignoramos por segundos e deu no que deu...

 

Antigamente nao teriamos nos detido para olhar o lado melhor da questao: estava tudo bem e tinhamos aprendido a nao dormir de novo no ponto. Quatro olhos colados dali pra frente, inclusive para entrar no canal de acesso ao pequeno lagoon de Culebra ( que pertence a Porto Rico ), forrado dos mesmos corais ao redor. Pudemos, pela manha, observar a circulacao de lanchas de passeio e a cor da agua muito translucida. Nossa ancora tinha resistido bem, com a corrente de brinquedo e cabo.

 

 

( Canal do Mona, visao extremo sul da Republica Dominicana )

 

Nosso objetivo foi seguir pela face sul de Porto Rico e na metade do comprimento total da ilha, conseguimos viabilizar finalmente o piloto automatico. Reinou uma sensacao de liberdade tao completa no barco, nunca experimentada antes, dessa forma. Como tinha bastante resistencia em timonear, mas o fiz varias vezes, o piloto entrou no meu lugar. O capitao respirou aliviado, lhe sobrando tempo para regular velas, conferir rotas, previsoes do tempo e relaxar. Estas tarefas todas eu ja estava fazendo e ajudando mas naquele momento nossos "tempos" comecaram a sobrar, sem culpa. Ali comecou uma nova etapa do velejar porque o ter que estar colado no leme, massacrou por 4 anos...

 

Pernoitamos duas vezes em Porto Rico, abastecemos e vimos seu recorte a distancia, nos surpreendendo com o pouco movimento de barcos nesta face. Atentos com a previsao, nos preocupava o canal do Mona, temido com ventos de nordeste e sua correnteza.( Caique e Debora pegaram extremo mau tempo neste trajeto, rumo aos EUA ). A previsao era favoravel, com pouco vento, podendo chegar a 13 nos e assim aconteceu em todo o percurso de 240 milhas ate Puerto Plata.

 

Haviamos saido de Boqueron, face sudoeste de Porto Rico para cruzar perpendicularmente o canal e atingir o lado norte da Republica Dominicana. Poderiamos ter cruzado e ir rumo oeste em paralelo a face sul da Republica mas nao tinhamos planos de passar por Cuba e sim, pelas Bahamas.

 

 Nossa escolha nos agradou em cheio: fomos recompensados com um visual magnifico das praias desta ilha. O que esperavamos de Porto Rico, encontramos ali. Praias longas, com coqueiros vergados, cansados dos ventos que constantemente os assolam...Vegetacao concentrada, vistosa, acompanhando o relevo com pequenos morros e recortes. Cabos e mais morros, enfeitados com pedras grandes, espelhando a cor azul do mar. Tudo deserto, eventualmente um telhado escondido, muito rudimentar. A corrente se tornou contraria e buscamos nos afastar dela, fazendo malabarismo para nao nos chocar com a imensidao de objetos que "embarcaram" de carona nela. Galhos, latas, fogao. Pena que muito usado ...Bem, nem daria para embarcar: a velocidade era muito boa...

 

Vimos tambem bujoes verdes, de gas, servindo como marcacao das redes de pesca. Criatividade latina. Motoramos para ajudar mas desistimos; nao havia pressa alguma. Estava bom demais e tivemos sorte que esses objetos flutuantes encontramos durante o dia.

 

 

 Canal do Mona, quando Caique passou por la...

 

Ao entardecer, ao som de baladas de Rod Stewart e petiscando lulinhas fritas, nao havia nenhum lugar no mundo que quissessemos estar que nao fosse ali, costeando a ilha...Bem, poderia ser outra musica e outro petisco...

 

Chegamos no dia seguinte em Puerto Plata que conseguiu, em minutos, quebrar o encanto fisico da costa.

 

Sujeira acumulada, cheiro fetido, porto pobre e pedintes. Tivemos que desembolsar 130 dolares americanos para jogar as amarras, de popa na doca e dormir ali, aproados para o vento de nordeste, ainda ameno. Bem, se a intencao era amendrontar, conseguiram. Imigracao veio a bordo, tivemos que comprar a bandeira de cortesia e entre nao dormirmos com um olho so, de receio com uma possivel invasaozinha e sermos gentis, com restricoes, optamos pela segunda opcao. Nosso labrador negro, nestas horas, tambem cumpre um de seus papeis: assusta.

 

Agradavel realmente foi ir embora rapidinho na manha do dia seguinte, com a popa arranhada depois de ter batido na doca enquanto procuravamos ancora com corrente e terminavamos de pagar as ultimas taxas, agora de saida...O vento comecou a aumentar mas nos afastamos pelo mesmo canal que haviamos entrado na tarde anterior, agora o mar bem mais alto e com tendencia a crescer ainda mais. Previsao: ventos de nordeste, fortes.

 

Debora esteve tambem na Republica Dominica, trabalhando, no Natal do ano anterior. Se encantou com o que viu e com a receptividade do povo local. Foi na face sul da ilha onde tambem ha bons programas de expansao para o turismo.

 

Em quatro horas no mar, paralelos ainda a ilha em direcao a Great Inagua, o vento comecou a nos obrigar a reducao de panos, rizando mestra e deixando a genoa para temporal. Mas foi todo o tempo por alheta de boreste, acompanhando o sentido das ondas e voamos baixo. Batemos 12 nos em alguns momentos e fizemos 185 milhas em 22 horas.

 

Pandora dormiu equilibrada no cockpit com as costas apoiadas no lado de bombordo e assim permaneceu ate o barco permitir outro movimento... Coisinhas simples como um xixi, em situacoes mais radicais como essa, sao simplesmente anuladas da rotina. Ela aprendeu ja em outras ocasioes, que nao, nao iria dar certo...

 

Sao bons os ventos amenos como tambem sao bons ventos fortes vindos a nosso favor, mas o melhor e chegar. Isso penso eu porque nao compartilha dessa ideia o capitao. Vou mais longe: se o barco esta bom e tudo segue bem ( e isto aconteceu quase cem por cento nestas pernas ate Great Inagua), e muito bom velejar mas a adrenalina nao e minha motivacao.

 

Para cem por cento sem problemas, so estariam faltando tres coisas: nossa primeira ancora com corrente, o ecobatimetro funcionar e cartas nauticas no computador terem mais detalhes da costa norte da Republica Dominicana. Guias a bordo ajudaram mas foi um terceiro programa implantado, recentemente, que resolveu nossas duvidas. Teria sido absolutamente mais complicado sem isso visto que nao se tem cartas especificas de papel a bordo, de todos os lugares.

 

Chegamos no dia 22 de abril na ilha de Great Inagua e nos abrigamos a sotavento dela, ao lado de um unico catamaram americano. Praia maravilhosa, areia branca, corais por perto e um sol convidativo...

 

Haviamos levado ate aqui 11 dias. Velejando ao longo do dia, dormindo a noite quando foi possivel, em algum lugar escolhido nas cartas nauticas, sem compromissos de datas, prazos e com muita folga para o inicio dos ventos mais fortes, que seriam a partir de julho.

 

Haviamos abastecido com alimentacao e agua, fartamente, para fazer cruzeiro. Nossos filhos sabiam destes nossos planos e nos sabiamos dos deles. Quando foi possivel, mantivemos contato e todos estavamos bem.

 

Pude ajudar bastante, nao sobrecarregando o capitao que tambem agradeceu. Tive que trabalhar bem mais que todas as outras vezes e ainda, o diferencial: quis faze-lo. Aprendi a por em pratica a navegacao que pacientemente tantas vezes me haviam ensinado mas que nunca havia assumido. Passei a ter consciencia dos riscos, e das atitudes para escapar deles que o capitao tomava. Ao inves de imaginar o que teriamos pela frente, busquei saber. Ao contrario de falar, passei a ouvir. Mudou o sentido de estar no mar. Uniram-se motivacoes que perambulavam frouxas ao meu redor e foi bom.

 

Estava ainda longe de ser uma marinheira mas, para quem ate hoje nem sabe nadar, evolui muito mesmo. Ganhei muitas rugas no rosto mas passei a pactuar com o significado delas. 

 

Pelo mar sempre tive muito respeito mas a minha praia, com certeza, seria um sitio, lugar em terra com corregos e muito verde...( Junte ai cachorros, galinhas e afins ).

 

De fato, mais um grande limite meu havia sido rompido. Mais um grande fastasma estava agora sorrindo desdenhosamente, brincando comigo ao inves de me entrevar. Quando hasteei a bandeira de cortesia das Bahamas, tambem dei um chute no tormento que sempre foi  estudar geografia...Tchau tchau rotulos e auto- definicoes... Se nao havia feito as pazes com eles tambem nao sabia por onde comecar a abandona-los e, ha muitas milhas nauticas de distancia do lugar onde nasci, renasci. Com base no querer,  permitir e superar. 

 

Hasteei rindo a tal bandeirinha e nos dois a bordo sabiamos a imensidao daquele gesto. Nao so por estarmos ali mas por termos feito ambos, por isso.

 

Os tres filhos acreditaram em nos e mais uma vez seus silencios, foram apoio.

 

Debora e Caique estavam fazendo charter nas Bahamas e Guilherme, fazendo a travessia pelo Atlantico Norte rumo Mediterraneo. Todos trabalhando.

 

 

Gui trabalhando...

...

 

 

 

 

 

Nossos filhos estiveram na face norte de Porto Rico, San Juan. Lugar proprio para o turismo e muito bonito.