Menos de 400 milhas ate nosso destino, escolhido a dedo ainda la nos Estados Unidos...
Temos trabalhado na area nautica nos ultimos anos e aquilo que se apresentou no inicio, como solucao, tornou-se uma opcao. Com excessao de eu ter trabalhado tambem em uma lavanderia ( Caribe ) e como housekeeper, a famosa diarista, nos EUA, os demais sempre estiveram de uma forma ou de outra como tripulantes em varios niveis ou ligados a manutencao naval.
O Mediterraneo possui a temporada de verao invertida com relacao ao Caribe e aos Estados Unidos. Com isto, escolhemos a Espanha para ficar e mais uma vez, recomecar.
Se necessario houvesse sido, estariamos vendendo paes ou empadinhas ainda ou …novamente. Conseguimos dar a volta por cima e dedicar nosso tempo em atividades que nos trouxeram o pao de cada dia ( ao inves de entregarmos…) e mais uma pecinha nova ou de manutencao para o Luiza.
O tal dinheiro.
Realidade para quem vive no mar ou em terra e o que mais trava nossos sonhos ou projetos ou buscas ou aventuras ou “ a virada…”
Se temos muito, nao podemos nos afastar dele. Se temos o suficiente, nem sempre achamos que realmente seja. Se nao temos nada, nao vemos luz no final do tunel.
Em 2000 perguntamos para alguem recem chegado de sua volta ao mundo como poderiamos nos sustentar aqui fora. Ele tambem nao soube dizer, porque havia sido patrocinado na integra. E mesmo que soubesse, descobrimos depois, de que adiantaria nos dar respostas ? Talvez as atividades que ele houvesse desenvolvido nos nao teriamos aptidao para executar….E o quanto cada um de nos estaria disposto ?
Sapos, muitos sapos. Micos, muitos micos. Dar a cara pra bater. Trabalhar em um bar americano para se obrigar a aprender o ingles mais que um Good Morning…. Entregar pedidos sem sentido porque da noite para o dia nao foi possivel captar e entender todo o cardapio nem o sotaque dos “ gringos” .
Usar zilhoes de “sorrys “ numa frasezinha porque nao se compreendia nenhuma palavra….
Querer crescer e passar noites decorando palavras chaves para o primeiro curso como tripulante. E depois, para outros, mais dificeis...
Estavamos dispostos sim a muito mais que todos nos acreditavamos, porque houveram momentos duros mesmo, sem grana.
No Luiza, dividir as bananas barganhadas na compra e colocar o nome de cada um na sua: eramos donos e com direito a escolher o que fazer com a “ propriedade tao valiosa...“.
- Que tal fazermos uma torta?
- “ To “ fora! Quero a minha com acucar e canela. So!
- Mas pombas! Faz horas que a gente nao tem banana e nem torta!!!!
- Dependendo de mim, hoje e que nao vai ter…. E tirem o olho da minha...
E a barrinha de chocolate??
Nem vou descrever os dialogos sobre aqueles pedacinhos …
Houveram amigos que olharam nossa despensa, com canto de olho e devem ter desejado cortar seus pulsos, de pena. Teria sido em vao. Teriamos que ter permanecido com ela vazia ate conseguirmos abastece-la novamente e depois, de maneira continua…
Quando pudemos, compramos de volta nossas queridas "coca-cola". Depois, deixamos de compra-las porque somos bebedores compulsivos e estavamos cada vez mais” bolinhas”.
Nao ter, ter e optar.
Assim com absolutamente tudo.
Saber esperar e quando a moral baixa, olhar para frente.
Ter em mente os momentos ruins mas buscar todos os outros bons.
Lembrar e sentirmo-nos gratos por cada gesto, cada pessoa que nos ajudou.
Esquecer, deixar para traz os menos generosos porque nem nos somos ou fazemos parte da familia de Madre Tereza de Calcuta. Mesmo que alguns de nos se esforcem.
Dando um passeio mental enquanto saimos pelo mesmo mole, agora rumo Mallorca, nao posso deixar de colocar aqui os desenhos abaixo, feitos por Gui, na dificl subida pela costa brasileira com o pai, quando nem um oitavo do que aprendemos, fazia parte de nossas vidas...



Ficamos de olho na previsao do tempo, com carinho, durante os dias que estavamos na Marina. Ja haviamos sentido que a previsao dada por radio nao era “ bem “ a realidade… Haviamos entrado, 6 dias antes pelo Estreito com previsao de 5 knots e no final da tarde, nos deparamos rapidinho com no minimo 20, acoitando-nos em rajadas.
Nosso rumo direto poderia ser nordeste desde Ceuta mas…., aprende-se e fomos buscar a melhor estrategia de navegacao, atravessando o estreito de Gibraltar rumo norte e depois costear ate o Cabo de Palos ( Costa da Espanha ) para entao sim, nordeste/leste ate Ibiza, a primeira das Ilhas Baleares. Tudo com escalas.

Saimos sabendo dos poucos ventos ate a primeira perna, em Cabo da Gata e ja fora do mole, o mar estava realmente liso. Eram 3 horas da tarde e ao cair do sol, o vento foi parando e nosso motor voltou a ser utilizado. Motorar, desta vez, nao nos assustava porque tinhamos combustivel quase ate Mallorca e nao sendo uma travessia Atlantica, tudo muda de figura. Ha facilidades na Costa.
Nos aproximamos da “ Estrada “ que existe no Mediterraneo, sentido de subida e descida dos navios, previamente plotado nas cartas e edicoes nauticas daquele mar e, ao mesmo tempo, comecou a acontecer o “ Fog”…
Veio manso, mais pesado, com pouca visibilidade e na madrugada, nula, pontuando o primeiro grande encontro do Luiza numa situacao dessas...

Nao temos radar. Possuiamos o defletor de radar o que, francamente, nao nos acalmou em nada. O movimento de navios gigantescos era tanto nos dois sentidos, que permanencer por ali o pequeno periodo que ficamos, foi angustiante demais.
Tripulacao do Luiza usou todos os recursos disponiveis para ser visto e percebido, emitindo sinais sonoros e luminosos em intervalos regulares de tempo . Foi uma noite muiiiiiito longa, sem muito o que conversar. Somente todos os sentidos em alerta.
Quando decidiu-se por maior aproximacao da costa para escapar do intenso movimento, o perigo seria cruzar a tal “ Estrada”.

Navegamos ate atingir o menor ponto para passar na perpendicular dos navios, escutando buzinas, sentindo os roloes que eles deixavam apos sua passagem e quando percebemos que estavamos fora da area de perigo, todos respiramos aliviados apesar do fog continuar persistente.
O nevoeiro foi acabar por volta do meio dia e recomecou ao cair da noite mas entao, ja estavamos jogando nossa ancora em Almeria, exatamente 200 metros antes do Cabo da Gata, boquiabertos com a beleza das montanhas aridas na famosa Costa do Sol, compensando mais de 18 horas de tensao.

( Almeria e na extrema direita, o Cabo da Gata )
Ficamos por la mais que o desejado porque vento e mar fortes nos impediram passar pelo Cabo no dia seguinte, apesar de tentarmos. Fomos obrigados a dar meia volta e jogarmos a ancora no mesmo local da chegada no dia anterior e o vento comecou a entrar tambem pelos morros, em rajadas fortissimas. Durou uns 40 minutos e ficamos de prontidao todo o tempo, na expectativa em sairmos dali, tal a forca dos ventos: encontravamos o famoso Mistral ou "Spirits"…

( Jogo de luz e sombras ao final da tarde, deslumbrando a todos nos. )
Como veio se foi e no dia seguinte, com bom tempo, mas so no motor, avancamos para pernoitar em uma linda enseada, proxima a Cartagena.

( Almeria )
O movimento de veleiros em cruzeiros navegando muito proximo da costa foi intenso. Alias, para costear a Espanha esta e a rota especifica para as pequenas embarcacoes. Foge-se da rota por fora onde passam os grandes navios mas fica-se a merce dos ventos provenientes das montanhas que nao tem hora marcada para entrar.

( Edificacoes nas encostas, agua translucida e nos. )
Caique e Debora neste periodo em charter pela costa da Italia estavam preocupados conosco. Estavam com Mistral de uma forma constante por la, acontecendo sempre durante o dia...
Mas nao apareceu de novo neste lado do Mediterraneo e foi mais uma perna de sorte. Sem ventos loucos acontecendo e dia lindissimo de sol.

No final do quinto dia, entramos em Cartagena para reabastecer o Luiza e como basicamente todas as marinas desde Acores possuem molhes de protecao, tambem ali nao foi excessao. A diferenca ficou por conta das ruinas em cada lado do canal, nos remetendo a uma historia muito distante, nas batalhas territoriais…

Ano anterior quando Guilherme veio ao Mediterraneo, foi exatamente em Cartagena que o barco de 170 pes que trabalhava, obrigou-se a parar para fugir do extremo mal tempo naquela coordenada. Vimos fotos de como estava a "situacao " naquele periodo e foi dificilimo associar com o Lago que estavamos encontrando desde a saida de Ceuta, salvo um dia. Mesmo assim, nem de longe similar.

Nao jogamos ancora numa pequena ancoragem permitida nem ficamos na marina: aproamos direto Ibiza, agora nos afastando da costa. Nao havia previsao de nevoeiro e resolvemos acreditar nela porque havia uma brisa. Deu certo: velas e motor para acelerar nossa passagem de novo na tal rota dos grandes navios, mas desta vez com boa visibilidade. O vento veio nos encontrar a tempo para sairmos da rotina dos 5 knots e chegarmos ainda com a luz do dia na primeira das Ilhas Baleares e famosa por sua vida noturna, abrigando o jet set em todas as temporadas de verao. Bem, nao era em nada o nosso lugar mas, quem precisa saber disso?

Todos os manuais sobre o Mediterraneo e as proprias cartas nauticas em papel possuem os lugares especificos permitidos para ancoragem. Difere totalmente de nossas costas brasileiras ( e inclusive venezuelanas e caribenhas...) que possuem muitas baias naturais protegidas.

Aqui existem os molhes com marinas dentro deles e sem espaco para jogar-se a ancora. Se torna na pratica, um problema bastante grande, tendo em vista que agora passamos de fato a conviver com euros e que o preco subiu para a extratosfera ( independente de ser em euros...), em qualquer marina. A diferenca, no entanto, e que se existe a permissao para este tipo de ancoragem, voce ira encontrar facilmente uma doca para deixar o dingue. Ou uma prainha. Nos EUA isso foi um serio problema motorando pela Inter Costal, que foi resolvido posteriormente ao desembolsarmos 10 dos nossos suados e tambem miseros dolares para deixar o nosso " auxiliar " por uma hora ou por 8 em uma das muitas marinas pelo caminho.

Comecamos a conviver com o que ja tinhamos ideia porque desde a Venezuela Fernando sempre levantou a questao Europa e com isto, foi correndo atras de informacoes. De fato sabiamos que nao teriamos a mordomia de parar em marinas e que teriamos que batalhar um espaco proximo a qualquer doca para o Luiza.

Fomos para o porto de Ibiza e achamos uma enorme area com veleiros ancorados gratuitamente sob a protecao do molhe….Foi um belo presente ( Ha um outro espaco menor permitido para jogar a ancora no porto mas havia mudado para um espaco maior ) !
Ficamos 36 horas por la, conhecendo e nos encantando. Fernando e Guilherme comecaram a sorrir mais que o habitual e seus encantamentos nao eram somente pela beleza de ruinas e mosteiros no meio da famosa cidade balnearia…: o top-less comecou a mostrar sua forca na Espanha! Como fomos aprendendo desde entao, seria uma pratica absolutamente usual, sem provocar arrepios maiores em todos os demais cidadaes que tambem usufruem da mesma praia...Claro, salvo para os brasileiros atonitos com tanta " belezura".
( Sou genenerosa ao usar parte da frase anterior no plural porque Gui ja havia estado por aqui na temporada anterior, lembram ? )

Liguei de um orelhao para Debora e perguntei se ela tinha alguma nocao de apesar de estarmos na Espanha, o que estariamos jantando...?
- Paella, mae?
- Nao filha, um Doble-Whooper do Burguer King!!! ...Matando saudades dos EUA....

Vento de leste na cara e ficamos parados por la. Os tais molhes protegem mesmo porque dentro estava tudo perfeito mas fora...
No entanto, dia seguinte ganhamos o presente maximo para quem batalhou um monte para chegar a Europa: ventos perfeitos, sol perfeito, mar perfeito. 70 ultimas milhas velejadas com todo o prazer que um veleiro pode oferecer, do primeiro ao ultimo momento em um percurso assim.
Estivemos 6 dias no Mar do Mediterraneo e conhecemos ali o nevoeiro intenso, ventos fortissimos, mar como lago e mar revolto. Um casal de alemaes comentou conosco, anos atras, que navegar pelo Caribe era pior que pelo Mediterraneo...Nao somos da mesma opiniao. Estivemos bastante tensos nestas 400 milhas justamente porque, apesar de estarmos ali na epoca correta, os ventos das montanhas e nevoeiros densos nao aparecem nas previsoes metereologicas...
Temos certeza que o radar nos fez muita falta.
Jogamos ancora em uma pequena enseada, dentro da Baia de Palma em Mallorca, no final do dia 06 de agosto de 2007.