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GRENADA                                              

 

( Luiza no Mar do Caribe )

 

 

( O comeco das grandes embarcacoes )

 

Ficamos quase quarenta dias nesta ilha que marca definitivamente o inicio das Pequenas Antilhas para quem vem da America do Sul e foi um periodo de muito aprendizado.

 

Os planos seriam passar o Natal ou Ano Novo com amigos velejadores que estariam subindo tambem o Caribe nesta epoca. Nesse meio tempo, fomos buscar trabalho nas marinas por perto mas nao encontramos nenhuma chance. Recomecamos entao com a nossa padaria e reabrimos o forninho do fogao de duas bocas, a todo vapor ( verdadeiramente, a gas...) Haviam muitos barcos nesta baia, algo na faixa de 40 ( muitos alemaes ) mas todos com bandeira diferente da nossa...Dificil seria descobrir o horario que eles poderiam apreciar paes e empadinhas mas arriscamos final da tarde e nos demos bem. Vendiamos cada pao por 3 dolares ( americanos ) e cada empadinha por 2 dolares fazendo um desconto, bem ao padrao brasileiro, na compra em maior quantidade. Dingue impecavel, bandeja com toalha branquinha, sorriso no rosto e propaganda em ingles e alemao. Vendemos muito mas tambem comemos muitas sobras. Chegou um momento que nem podiamos pensar nem em um quanto mais em outro, como refeicao...Desses contatos surgiram alguns relacionamentos mais proximos e acabamos por estabelecer amizade com um alemao e sua companheira brasileira, em seu barco, batalhando tambem para manter o objetivo de velejar.

 

Os homens do Luiza ajudaram a tirar das pedras um veleiro que se tornou propriadade deste alemao e que sem 10.000 dolares americanos para contratar o rebocador, tinha que dar um jeito por si so. Ocupou muito do tempo que ficamos em Prickly Bay e foi um periodo de torcidas constantes para que os planos no papel dessem certo na pratica na hora de remover o barco para a agua sem danificar o costado, apesar de tudo, intacto. Um belo barco em aco que foi retirado, na etapa final, dias apos irmos embora e soubemos depois, estar velejando pelo lado de Margherita, Venezuela. Pela ajuda, o Luiza ficou com uma genoa pequena ( se e que aquele pedacinho de pano daria pra ser considerada uma vela...) , um pedaco de placa solar e um radio SSB receptor de grande qualidade. So nao podiamos falar mas passamos a ouvir. E muitas tardes escutavamos estacoes do Brasil e suas musicas, sentindo um ventinho gostoso no cockpit, pensando no que ficou para tras...Mas o objetivo era ir em frente.

 

Nosso estoque de redes ainda estava absurdamente alto e nao diminui muito em Grenada. Vendemos de pingado umas 6 e tambem este dinheiro em caixa, foi nos mantendo por la. Antes do Natal resolvemos mudar de ares e abastecer o barco com agua e diesel para deixa-lo pronto para subirmos depois das festas.

 

Para isto, resolvemos ancorar mais ao norte da Ilha, no Lagoon. Afinal, com vento nao haveria despesa nem de diesel e quebraria a monotonia. E quebrou mesmo: chegando na entrada do local fomos dar a partido no motor e o "estarter" disparou. Conseguiu ligar o motor, mas ele, nao parou mais de funcionar super aquecendo e queimando o motor de arranque. Aberta rapidamente a tampa do motor abaixo de gritos, com a fumaca toda e uma pequena labareda visiveil a questao foi direcionar e acionar o extintor de incendio. Bem nessa hora, a chave geral das bateria emperrou. Desligamos o motor mas nao deu para verificar ate onde tinham ido os estragos em funcao do superaquecimento na sala de maquinas. Voltou a reinar a bordo o famoso silencio dos atonitos, agora sem riscos, so na companhia do cheirao de queimado...Luz do dia indo embora, velas desfraldadas numa acao das mais rapidas, aproveitando a brisa, entramos no ancoradouro. Direcionamos o Luiza por entre os barcos com o dingue contrabordo ao veleiro e Caique no controle do motorzinho. Constatacao final sem maiores novidades: estragou nosso arranque, de vez! Bem, havia durado desde 1975 mesmo...

 

 

Foi uma batalha que nao ganhamos a de arrumar ou comprar um motor de arranque novo, nesta ilha com cheiro de especiarias...( Ela e a Ilha das Especiarias.) Sem o motor funcionando, o problema maior seria recarregar as baterias. Haviamos providenciado um pequeno gerador que ajudava muito mas nada confiavel e apesar das tentativas que se estenderam ate 8 de janeiro, nesse meio tempo passamos o Natal e Ano Novo de cabeca quente. Os amigos nao vieram, de novo o dinheiro escoando, a falta de chuva pra que coletassemos agua ao inves de pagar. O objetivo de passar batido todo o Caribe e ir para Sint Maarten atras de trabalho se fazia mais eminente do que nunca mas estava dificil a decisao.

 

Seria correr o risco em ir sem motor e consequentemente arriscar acabar sem energia alguma no trecho ou voltar a Trinidad e comprarmos la a peca de reposicao. A distancia rumo noroeste, para Saint Maarten eram por volta de 350 milhas. Trinidad, abaixo, bem mais perto mas o custo na imigracao para darmos novamente entrada seria um problema. E eles sao altamente exigentes quanto a isso, mesmo que por 24 horas somente de permanencia, ou menos.

 

Situacao explicita para os cinco, o capitao expos sua opiniao: Trinidad. Mas nos 4 optamos por seguir.

 

 

 ( Navios de Cruzeiro por todo o Caribe )

 

Tenho certeza absoluta que, mesmo a par das perspectivas de uma velejada dificil, o que nos motivou foi atingir a possibilidade de sonhar com os pes no chao ( ou em agua ) mas com trabalho, dinheiro e ai entao as proprias buscas. Os sonhos.

 

Nossa determinacao nao era por si so suficiente: nao alimenta, nao viabiliza sob todas as formas. Trabalho temporario como skipper, day-works, redes, paes, empadinhas ajudam; nao resolvem. O sexto elemento, nosso barco, nossa casa, sempre pedia manutencao. Constantemente nos exigia alem do proposto. E nao me refiro a comforto. ( Isso ficou em terra, junto com tantos outros excessivos bens de consumo que consideramos " indispensaveis" e que sao totalmente irrelevantes quando se enfoca diferente ! )

 

Nao tinhamos freezer, nem geladeira 12 volts, nem placas solares ( um pedaco, apenas, em condicao duvidosa ) , nem aeolico, nem gerador confiavel. E agora nem motor. Nossas bombas de porao eram boas mas iriam tambem logo necessitar ser substituidas. Nossa buja unica, teria que ter uma irma. Havia no Luiza uma mestra velha, guardada junto com o tal " trapinho "que haviamos ganho do alemao. Sabiamos de todas as prioridades fisicas e sabiamos das nossa, como individuos. Viabilizar a forma de chegarmos aonde queriamos foi a grande questao. E rapido.

 

Preparamos o barco e os espiritos e saimos do Lagoon duas vezes, rebocados pelo nosso proprio dingue.

 

Na primeira, voltamos 4 horas depois com a buja rasgada.. Ventos fortes, de rajada e vindos por cima da ilha. Isso por sotavento, imaginem la fora !!! Mestra rizada rapidamente e ...voltamos  ancorando no mesmo lagoon.

 

Dia seguinte, com uma genoa da Polinesia, nos oferecida por um outro barco ancorado e comprada com "pounds" recem entrados no caixa do Luiza apos um trabalho que os meninos pegaram, fomos definitivamente.

 

A nossa buja, costurada, voltou para o enrolador enquanto a " nova " serviria como reserva, apesar de em otimo estado, porque teriamos que acertar a saia dela antes de poder usa-la.( Reformar mesmo...)

 

E o trecho que no maximo poderia ter sido feito em 3 dias e tres noites, indo sem parar, mostrou definitivamente que nao se fazem contas de chegar, no mar.

 

Pegamos uma depressao que veio de nordeste e que cresceu, avolumando ondas, ventos e correntes. Mestra rizada, genoa reduzida e vento na cara. E novos problemas surgiram no barco: foi uma sucessao que nos mostrava que eram reais porque estavam acontecendo conosco. Quando se imaginava que nao teria, nao poderia! estragar nenhuma outra coisa, estava la outra situacao pra nos mostrar nosso engano.

 

Resumindo: perdemos a buja costurada, aquela mestra velha que usamos como genoa e a mestra em uso acabou com dois rasgos. O estaiamento de forca caiu e o cano de ligacao do leme de vento tambem, perdendo-se no mar. Pelo eixo do leme comecou a fazer muito mais agua que o habitual e o proprio leme voltou a ter folga.Com isso a agua no porao passou a ser monitorada muito mais constantemente e a bomba reserva ser ligada pra dar vazao ( aumentou o consumo de energia ). Energia no final porque a tal da plaquinha solar nem pode nos mostrar se funcionava ou nao: foram cinco dias de muita chuva e vento, piorando a noite, como parece que e o habito no mar. No ultimo dia ficou totalmente impossivel seguir em direcao a Sint Maarten dada as condicoes de vento e mar ainda piores e rumamos para Ilhas Virgens, 75 milhas a frente.

 

Entramos no famoso Canal de Drake somente com a mestra rasgada e com o " trapinho " na proa, mais para nos motivar psicologicamente que para captar algum vento. E, como por milagre, ele rondou e entrou pelo exato lado que precisavamos. Nos informamos por radio onde parar e o melhor lugar era justamente na nossa proa. Havia uma boia e, novamente com a ajuda do dingue, foi nela que ficamos.

 

Somente tres comeram alguma coisa. Os outros dois dormiram praticamente sentados. Tudo dentro estava molhado. Nao havia cama seca mas o cansaco era maior que a aversao que se tem a umidade, em um barco.

 

Dei um beijo em cada um por terem me trazido ate ali porque fiz muito pouco de pratico. Foram os quatro que se revezaram em tudo, no meio da confusao, do cheiro de cachorro molhado ( porque havia mesmo todo a viagem um cachorro molhado na cabine ), da umidade e tambem la fora, nas noites tao escuras que nem quando a buja transformou-se em trapos deu pra enxergar do cockpit.

 

Estar nessa situacao de presos com cabos a uma boia depois de nem ter certeza se conseguiriamos chegar provoca um sentimento que jamais vivenciei em terra. Algo entre felicidade e agradecimento tao grandes que so o silencio e o olhar de quem vivenciou o mesmo e capaz de entender. Ja nao se buscam respostas, simplesmente elas surgem. E junto, a experiencia. E juntos comecamos a compreender o Caribe: seu mar, seus ventos e correntes.

 

Fizemos quase 450 milhas e todas as ilhas ficaram para tras, passando por boreste.... Nao fizemos turismo, nao mergulhamos, nao conhecemos nada mas, estar em Tortolla, nas Virgens Britanicas, havia sido uma conquista. A natureza acabou por permitir e nos soubemos conviver, aceitar e resolver o possivel.

 

 Ficariamos por la so o tempo necessario para mais uma vez, erguermos o Luiza e seguir para Sint Maarten.

 

 

( Nascer do Sol )

 

Nossas verdades...

 

 

 Ivan, o furacao, havia passado por Grenada 3 meses antes. O povo estava reconstruindo suas vidas, reerguendo suas casas. Sentimos a forca da natureza nos rastros que deixou e no povo que sobreviveu.

 

  Um clarao branco, movimentando-se em circulos, no Mar do Caribe, 50 milhas de distancia da costa das Ilhas, a noite. Navios de Cruzeiro, aos montes, ofuscando a escuridao.

 

 Em Prickly Bay vimos os primeiros grandes veleiros (90 pes) e tambem os grandes motoryatchs, com convidados ( guest) a bordo.

 

 Da noite para o dia, Pandora comecou a comer os fios da navegacao de proa, e a mangueira de protecao da fiacao, sob o conves, perto do guincho.

 

" Pescamos" 2 baldes de sardinhas, sem isca, sem varinha, sem anzol, sem rede ou tarrafa.Tambem nao compramos e nem ganhamos. Foi em Hallifat Harbor, uma pequena enseada na ilha. Nao e historia de " pescador "...

 

 Nosso ingles vai melhorando mas falta muito pra entender o que respondem...

 

A tinta do conves, repintado na Venezuela, comeca a soltar e na cabine, pedacinhos brancos comecam a " decorar " nossos paineiros e moveis.  

 

 O transporte na ilha e feito com "vans". Um dolar por pessoa. Cabem 12 em media na conducao e se o ultimo quiser sair...todos os que estao na frente descem e depois retornam. E fique esperto: vao querer te cobrar mais que vale o " trajeto". E se segure, que voam baixo !!!