BAHAMAS
( Acredite: voce deve conhecer... ) 
( Nosso trajeto ) 300 dolares com direito a permanecer 2 meses e poder pescar a vontade, por todas as ilhas das Bahamas! Isto pagamos na Imigracao em Great Inagua, para os oficiais dos mais simpaticos, que inclusive nos deram carona de camionete de volta a praia onde estava ancorado o Luiza. Barato se pensarmos o quanto haviamos gasto, em uma noite, na Republica Dominicana; uma fortuna comparada as taxas de Imigracao pelo Caribe e Venezuela e um desfalque nos bolsos desses brasileiros do Luiza. Mas, ao final, valeu cada centavo, sob todos os aspectos. Atitude muito amigavel, foi um padrao por todas as ilhas que passamos. Caronas, buzinadas seguidas de "oi", perguntas se estavamos bem ou se buscavamos algo em especial. Sem estarmos habituados com esse tipo de gentileza espontanea, acabaram por nos conquistar facilmente. Andamos muito ( rotina de quem veleja, quando em terra ), rimos bastante com todas as novidades a cada esquina e driblando as muitas lagartixas pelo caminho. Sao vilas paradas no tempo com armazens e barzinhos como ha nos bairros das periferias de nossas cidades, no Brasil. Possuem asfalto nas vias principais mas sao estreitas; cabines telefonicas ao estilo ingles ( mas desconsidere a facilidade em achar uma que funcione ou cartao a venda, nas proximidades...) assim como a circulacao dos carros ( mao invertida ) sendo novos na maioria. Areia por todo o lado, arvores com galhos beijando o chao, casas simples sem muros mas com seus gramados cuidados e telhados claros. Sentido total: muito calor em funcao da localizacao geografica e ventos, que chegam livres do Atlantico e passam abracando as ilhas que possuem 5, 6 metros nos locais mais altos, em relacao ao nivel do mar. 
Ilhas que foram esquecidas ou impedidas de absorver qualquer desenvolvimento urbano, no extremo sul das Bahamas mas com onibus de linha, taxis e banquinhos ao largo, para esperar. Elas sao inglesas e passaportes brasileiros sao bem vindos, sem necessidade de visto. A populacao espalhada pelas muitas ilhas e ao redor de apenas 3 000 individuos, num estudo rapido, genealogico, encontram-se pouquissimas familias diferentes, sendo ramificadas na grande maioria... E comum de um lado da rua um sobrenome e do outro lado, o mesmo. Todos se conhecem, podem dar informacoes das mais precisas aonde "fulano" esta porque possuem telefones celulares sempre a mao e o numero de contato da pessoa. No noroeste, em Berry Islands, no vilarejo chamado Bullocks Harbor alguem nos deu carona para comprarmos cartao telefonico na unica revenda da regiao. Esqueci todos meus documentos dentro do carro ...Bem, perguntei para uma familia sentada, vendo a vida passar e em segundos, me passaram o nome, ligaram para a pessoa e me levaram ate o servico dele, onde, com sorriso largo me devolveu a bolsa! Agradeci e ele desculpou-se por nao ter-me entregue antes pois estava retido trabalhando. Iria a noite, no veleiro Luiza entregar ( ...aquele la na ancora, nao e...) (sic) . E isto comprovou nossa teoria que, todas aquelas pessoas sentadas ao longo do dia, monotonamente como ocorre a vida nas ilhas, ficam percebendo qualquer movimento novo e vira assunto geral. Ali, esta "fofoca peculiar" encantou nossas almas nada acostumadas com tanta solicitude. 
Saimos de Great Inagua rumo Hogsty Reef, tido como bom pesqueiro porem encontramos desolacao. Dois navios afundados em cada extremo da ferradura de corais e uma pequena ilha de areia, com um coqueiro arqueado pelo vento. Associando imagens, era uma ilhota como as de piada sobre naufragos mas para rir nao havia nada...Ver os destrocos daquelas duas embarcacoes enormes nos entristeceu. Facil, estando ali, imaginar o sofrimento naquela situacao... e deixamos os tais peixes para outros menos sensiveis que nos. Seguimos agora noroeste, rapidinho, para chegar ainda sob a luz do dia em Ackins Island e contornar seu farol. Ventos muito bons nesta regiao e nesta epoca, fazem voce poder se organizar nos calculos horarios e acertar na mosca: caindo o sol ancoramos a sotavento. Absolutamente tudo deserto. O mar lindissimo e as areias brancas so para nos...Mas, chegamos a estranhar tanto isolamento. Ao amanhecer do dia seguinte, rumamos para Long Island, para sotavento dela e ao entardecer, jogamos o ferro perto de Calloway Landing. A beleza da cor nas aguas, na medida que saimos das maiores profundidades, fica proxima a das Granadinas ( la no Caribe ), mas supera. De tao clara ela efetivamente confunde porque se enxerga fundo a areia branca e tambem os corais, tirando a perspectiva real do campo da nossa visao. Todo o cuidado e pouco ( gatos escaldados ), fui na proa e Fernando ficou, alem de timonear, tentando escutar o alarme da sonda ( que era so o que funcionava, lembra ). Beleza total, safos. Ancora na agua, tempo de Pandora e eu brincarmos ao redor do barco, no mar rasinho ( ate hoje nestas horas nao sei quem cuida de quem ...). Sensacao de leveza, de frescor. La adiante, um grande trecho do ceu num tom mais claro que todo o resto dele...Nossa, o reflexo dos bancos ! O ceu funciona como espelho da imensa claridade, dada a pouca profundidade das aguas! Impagavel a beleza ! Apesar de pintar aquarelas, nao consegui em nenhum momento reproduzir nem proximo, aquelas cores e nuances... 
Dia posterior, fomos em direcao ao banco, querendo cortar caminho para chegarmos em Little Exuma Island. Mais um dia de bela velejada, sentido noroeste de novo. Neste trecho, cruzamos com veleiros da regiao que possuem uma enorme vela mestra, sem asteamento e manuseada por sistema de roldanas. Bastante primitivos mas magnifico de observar seus deslocamentos de forma tao agil. Estes veleiros nao possuem quilha, absolutamente proprios para aquele local com profundidades mininas. Quanto a nos, acabamos dormindo proximos 4 milhas do canal de acesso diante da pouca profundidades para o nosso calado. Ambos ficamos frustrados mas era verdade: estava la, minusculo, em outra carta: " 3 feet"... ( cerca de um metro ). So faltou a placa de sinalizacao dizendo pare... A realidade dos bancos das Bahamas vai alem das cartas nauticas, esta a verdade. Ha regioes que estao marcadas todas elas ( as profundidades ) mas, na pratica, ha a necessidade de " se tatear " em funcao da diferenca de mare, que pode chegar a mais de metro. Pelos caminhos convencionais o misterio e menor e os canais sao melhor especificados. Gps ligado e rota seguida ponto por ponto ( curtissimos! ), mais olhar de aguia, com sol a pino ou na proa, uma rezadinha braba na hora de sair e da tudo certo. Ainda assim ha lugares que so com guias locais, segundo as proprias cartas. Alias, os programas de computador todos ajudam mas fomos aprendendo que la, nas Bahamas, e o lugar para voltar aos velhos habitos: cartas de papel a mao e em tempo integral. Dormir nos bancos nao tem absolutamente problema algum e se deve fazer exatamente isso (quando nao e possivel pelo movimento excessivo na area, os Guias avisam). Nos, que temos uma tendencia a querer ser inovadores ( ai ai ai ) nao nos arriscamos porque estando la se percebe a impossibilidade real de navegar a noite. As proprias cartas e manuais e guias das Bahamas dizem isto em letra maiuscula e alertam: nao tentem! Nem com ecosonda em perfeito estado ( nao o nosso caso, claro ). Nos bancos existe apenas o problema das correntes opostas em relacao ao vento e deve se ancorar com duas ancoras. Sentimos isso na pele ( Six Shilling Cays ) e foi a noite do terror. Como nao conseguimos a segunda ancora nem mais corrente, muito menos nas Bahamas que nao tem nada por onde estivemos, Fernando ficou a noite de plantao porque a sensacao era de flutuar, como se o barco estivesse solto, na eminencia do cabo pegar na quilha e nos irmos " beijar " os muitos corais ao redor. Vento no sentido oposto e claro, mudancas ainda na mare...Nossa sorte foi que, apesar de tantas ancoragens, somente esta situacao foi caotica. Nao ajudei no plantao porque, com o nervoso da cena, mareei como principiante e so um sono me regeneraria. Fez efeito porque na manha do dia seguinte, era de novo so otimismo! 
( Uma das muitas ilhas das Bahamas ) As ancoragens especificadas, ao entrar ou sair de um banco, sao sempre muito diferentes do que se conhece como local para abrigo porque tem a caracteristica de nao serem abrigadas absolutamente de nada. Nos reconferimos algumas vezes os lugares achando que estavamos enganados porque nos parecia coisa de louco mas, era assim mesmo...Nao foi facil acostumar e saimos das Bahamas com algumas conclusoes : 1. Cartas, manuais e guias da regiao consultados regularmente e de toda a extensao delas, vital. ( Obrigada Geraldo !!!! ) Raspar o fundo do barco na areia dos bancos das Bahamas inevitavel mas nos corais, com tudo isto, da para escapar ( mais os olhos de aguia, nao esqueca !!!) 2. Diesel, porque ha que ser feito determinados trechos durante a luz do dia. Com vento ou sem. 3. Mantimentos e sobressalentes porque, com excessao de Nassau, nao ha quase nada. Quando foi possivel achar uma pequena mercearia, nos cobraram 7 dolares uma carteira de cigarro ( bem, quem manda fumar...) e so era possivel levar um, do estoque de dois litros de leite ( apesar do preco abusivo ) porque existem " mais fregueses, mam...". 4. Internet achamos em uma das ilhas. O preco deste luxo melhor nem contar... 5. Ancoras e correntes. (...olhe quem fala mas e assim mesmo....) 6. Ecosonda, por favor!! Que funcione !!! 7. Muita linha e isca para os peixes enormes que voce conseguir embarcar. Alucinante o que ha deles nas bordas dos bancos, quando sobe a profundidade abruptamente. E tanto o paraiso da pesca que do centro das Bahamas para o norte cansamos de contar lanchas para este esporte, super equipadas. Pandora se tornou especialista em entender de pescaria: nos avisava ao menor ruido da catraca na carretilha quando estavamos com nosso equipamento de pesca na agua. Depois ate ja tinha a rotina de sentar e esperar o peixe ser fisgado e ser rebocado para o Luiza; sabia que ganharia sua cota, depois, no jantar. De valentona do cockpit a amedrontada diante do tamanho deles, ja a bordo, corria de tanta emocao, por todo o barco...Nestes momentos todo o pelo dela invadindo o veleiro e sendo degustado junto em varios petiscos, eram secundarios. Sao momentos maravilhosos e vale a pena sim ter um cao a bordo ! 8. E a previsao do tempo como exercicio matinal porque se entrar um vento mais forte, nao vai dar para escapar do swell nas ancoragens indicadas, ao largo dos bancos. O mar arrepia mesmo e ai voce nao enxerga o fundo para tentar ir adiante. Claro, no seu passeio por la, isto tudo agora parecera uma obviedade mas, anota o nosso email e depois a gente conversa... 
( Foto tirada por Caique proximo a Nassau ) Passamos, depois de retornar para Long Island, agora por barlavento dela, direto para Rum Cay. Uma ilha no meio do nada. A virada no tempo aconteceu e tratamos de ficar por la ate tudo acalmar visto que o vento de norte-nordeste estava forte la fora, provocando ondas de 3 metros ! Nos, no lagoon, mesmo a sotavento, face sul, dormiamos com um olho aberto e o alarme do gps ligado porque nossa ancora com nosso cabo estavam nos deixando loucos ! E nao daria para o barco correr: muitos corais por todos os lados. Quando fomos jogar a ancora neste lugar entrou no radio VHF alguem falando em ingles, nos orientando. Quanta gentileza mas, o problema, e que nosso ingles era para poder nos expressar...nao sabiamos entender. E, na pratica, para quem nao tem a fluencia da lingua ( ainda mais do ingles dos americanos ! ) parece russo. Nos momentos de maior tensao, a coisa piora. Conclusao: respondi em ingles que nao estava entendendo nada e logo em seguida veio um dingue nos ajudar. Eles, com real conhecimento da regiao, se apavoraram e nos, gracas a nossa ignorancia, fizemos o que havia para ser feito. Deu tudo certo apesar do estresse. ( Ja li em algum lugar que uma pitada de sorte faz parte desta vida de velejador. Assino embaixo. ) Ha nesta ilha uma pequena marina, com boas instalacoes onde poderiamos ter nos abrigado mas inviavel para nosso bolso. Ela e bastante utilizada, inclusive por megaiates e grandes lanchas de pesca, tida como um oasis nas parte central das Bahamas. Ha tanta dificuldade em seu acesso que pequenos barcos vao buscar cerca de 2 milhas afora, trazendo pelo diminuto canal as embarcacoes que pretendem ancorar em suas instalacoes. Foi um dos nossos lazeres observar o corre-corre diante do pessimo mau tempo. ( Ah essa inevitavel natureza humana !!! ) A praia nesta face da ilha e extensa, areia branca, fininha. A agua vista do mar para a terra, possue faixas no sentido da praia, estreitas, com cores variadas, dado aos corais no fundo e a ausencia deles. Fica zebrado, totalmente diferente e bonito. Quando o tempo melhorou, seguimos pela baia de Exuma Sound para atravessar o banco e sairmos na parte nordeste do Providence Channel, onde a movimentacao e intensa, dia e noite. Fizemos com mais uma ancoragem pelo caminho que foi em Cat Islands, onde reabastecemos com diesel, sistema a pe ate o posto, com galoes. 
Saimos ao entardecer, velejamos a noite toda e entramos pelo Ship Channel 9 horas da manha, com luminosidades e ausencia de vento. Perfeito ! Final do dia, dormimos na ancoragem que descrevi como " a do terror " e depois, com corrente contra, provocando barulho de cachoeira ao redor do Luiza mais a ausencia de ventos, fez conosco um exercicio de redobrada paciencia. Conseguimos chegar depois de 48 horas em Berry Islands, o tal lugar onde perdi a bolsa... Descansamos, circulamos, conhecemos. Algumas marinas com otimas instalacoes e mais movimento de pessoas. A solidao esta mesmo la do centro para o sul das Bahamas. Nosso rotor da bomba da agua do motor pifou de vez e, em algum lugar do barco estaria a ultima reserva...Na duvida, conseguimos uma ajuda de um ingles da ilha que mandou comprar novos em Nassau. Fomos obrigados a "sofrer" mais dois dias, aguardando, naquela ancoragem ( enfim uma ! ) protegida dos ventos, diante daquelas aguas translucidas...Com energia de sobra porque o aeolico nao parou de funcionar em nenhum momento, nas Bahamas. Chegaram as pecas e reposicao feita, Luiza rumou novamente por mais um banco, agora direto para Fort Lauderdale. 12 horas entre velejada e muita motorada nos baixios com uma maravilhosa novidade: o ecosonda, do nada, voltou a funcionar!!!! Passados 32 dias de muita tensao, justo ali onde ja haviamos driblado o pior, o danado resolveu entrar em atividade...Antes tarde do que nunca e claro que ajudou um monte, porque, pelo banco, o rumo oscilava entre 270 e 280 graus magneticos na bussola mas com baixios e corais nas bordas, na faixa de 1 metro e meio de profundidade.. . Este ultimo percurso ate Bimini nem consta na carta como canal e nos foi passado por um marinheiro, morador e navegador na regiao, ha anos.O mesmo senhor que nos ajudou com os rotores e que ganhou nossa unica e linda camiseta do Brasil, bordada e tudo! Perfeito: nao havia nada mais significativo para nos, a bordo, que pudesse ser dado em troca de tanta gentileza. Conosco, a noite, muitos barcos no unico trecho que conhecemos aonde independe da luz do dia, pelos bancos das Bahamas. Naquela ainda ultima ilha fomos atras do Departamento de Imigracao para dar a saida do barco e nossa. Andamos muito por ela, sob um calor escaldante e emagrecedor para descobrimos no aeroporto que nao havia necessidade. Procedimento totalmente diferente de todos os demais paises do Caribe e aceito pela Imigracao Americana. Nosso roteiro nao incluiu Nassau ( entre outros lugares conhecidos ), apesar de termos passado muito proximos. E vimos pouco do que compoe as Bahamas. O tempo voou nos dias sempre de sol que pegamos ( so uma noite de chuva no mar ), com calor delicioso e tambem friozinho na madrugada, no cockpit do Luiza. Muito vento, pouco vento, grandes correntezas, variacoes nas mares, lugares ermos, outros com grande movimentacao. Muitas variacoes em funcao da posicao geografica em que nos encontravamos naquele momento, mas a beleza das aguas e das praias, foi unica. ...Quando menina, vi "slides" sobre este lugar, que eram de uma recem viagem do meu pai ate ali. Haviam, entre tantas, imagens de passaros pescando peixes em aguas rasas, atentos ao menor movimento na agua. Nao vi nenhum passaro nestas condicoes mas me lembrei da sensacao que me foi passado naquele longinquo momento da sessao de fotos: beleza...Nao e a toa que velejadores e barcos de todos os tipos invadem aquele paraiso, temporada apos temporada, circulando e parando em lugares dos mais diversos. Fizemos, desde a saida de Sint Maarten, em 33 dias. Quando atravessamos o Golfo da Florida para chegarmos nos EUA por Fort Lauderdale, ja era hora. Alias, mais do que o momento de matar as saudades de Carlos Henrique e Debora que estavam por la. Foi otimo o reencontro. Guilherme, que havia saido para a Europa, fez a travessia ate la em menos tempo que nos, do Caribe para os EUA e os tres insinuaram nossa lentidao. Bem, eles estavam a trabalho e nos, bem, nos... - Por favor! ...licenca para esta nossa segunda "honeymoon", filharada !! 
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